Por que as paradas do orgulho gay estão sob ataque — dentro e fora da comunidade LGBT

Enorme bandeira arco-íris desfraldada durante a parada do orgulho gay de Brighton, na Inglaterra, em 2022

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    • Author, Darren Milby
    • Role, BBC Rádio 4
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  • Tempo de leitura: 11 min

Matt deixou a cidade inglesa de Crewe assim que pôde, aos 18 anos. Ele sentia que não era aceito como um jovem gay.

A única cena LGBT existente em Crewe era um minúsculo bar improvisado atrás de uma cortina nos fundos de um bar nos arredores da cidade.

Ele saiu em 2015. Mas, em junho passado, Matt acabou voltando para sua cidade-natal para participar da parada do orgulho gay de Crewe. Para ele, foi um retorno importante.

"Realmente me trouxe de volta à época em que eu era criança e crescia aqui, tentando conviver com a minha identidade", ele conta.

"Foi muito importante estar aqui e ver como uma cidade que não era particularmente receptiva... mudou e floresceu."

Para muitas pessoas, estes pequenos eventos comunitários celebrando o orgulho gay parecem imensamente distante das enormes comemorações realizadas nas maiores cidades do Reino Unido.

Mas o fim de semana feliz de Matt em Crewe esconde uma guerra cultural cada vez maior em torno do orgulho gay.

Nos últimos anos, diversos governos locais retiraram seu apoio aos festivais. Algumas grandes marcas, talvez receosas de parecerem "woke" demais, agora pensam duas vezes antes de se associar a eles.

Para agravar a situação, existe uma antiga queixa de alguns ativistas LGBT de que o orgulho gay ficou muito comercial. E as discussões sobre assuntos trans também aumentaram.

Com tudo isso, algumas pessoas já se perguntam: as paradas do orgulho gay têm futuro?

As origens do orgulho gay

O orgulho gay começou como forma de protesto.

A primeira marcha oficial do orgulho gay do Reino Unido foi realizada em Londres em 1972.

A homossexualidade era ilegal no país até 1967. As pessoas LGBT perdiam seus empregos e moradia devido à sua sexualidade e a polícia fazia batidas e mantinha vigilância frequente em relação à comunidade, fazendo com que seu dia a dia ficasse precário.

Em Manchester, na Inglaterra, o orgulho gay começou a aparecer discretamente em 1985.

Naquele ano, foi organizado um bazar beneficente em Canal Street para levantar dinheiro para enfeitar a ala do hospital que tratava de pacientes com HIV e aids no pico da epidemia — e que tinha aparência um tanto cinzenta.

Imagem em preto e branco da polícia invadindo o bar Stonewall Inn em Nova York, nos Estados Unidos

Crédito, Arquivo do NY Daily News via Getty Images

Legenda da foto, Em 1969, a invasão policial do bar Stonewall Inn em Nova York, nos Estados Unidos, levou à famosa revolta de Stonewall

Os participantes daquele primeiro evento não tinham como prever como seria a parada do orgulho gay de Manchester no futuro: um espetáculo de quatro dias no centro da cidade, no feriado bancário britânico de agosto, com carros alegóricos coloridos e música alta.

Espectadores entusiasmados tomam cada centímetro do asfalto, elegantemente vestidos, com o arco-íris pintado no rosto.

Em 2019, o evento ultrapassou as fronteiras da famosa Gay Village da cidade.

A principal atração daquele ano foi a superestrela americana Ariana Grande. Ela se apresentou em um palco construído especialmente para o evento em outra parte de Manchester, com ingressos a preços mais altos.

A iniciativa gerou críticas e os organizadores da Manchester Pride voltariam a ser criticados por encerrarem o financiamento de diversas entidades beneficentes. Elas incluíam uma organização dedicada ao HIV e um programa de distribuição gratuita de preservativos.

A empresa responsável pela parada gay de Manchester entrou em liquidação voluntária no ano passado. As dívidas com fornecedores e artistas, incluindo a cantora canadense Nelly Furtado, atingiram mais de um milhão de libras (cerca de R$ 7 milhões).

Desde então, empresas e organizações locais criaram um grupo sem fins lucrativos chamado Manchester Village Pride para organizar festivais muito mais baratos e com raízes na comunidade.

Cena da apresentação de Ariana Grande na Manchester Pride de 2019

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Legenda da foto, Ariana Grande se apresentou na Manchester Pride de 2019 em um palco especialmente construído para a ocasião

Carl Austin-Behan ajudou a organizar o evento deste ano, realizado em escala menor. Ele conta ter se "decepcionado há vários anos" com a direção da Manchester Pride.

"A retirada dos eventos da Pride Village foi o primeiro sinal de que tudo estava tomando um caminho errado", ele conta.

"O evento deveria ser sobre a comunidade. Certamente não precisamos gastar o volume de dinheiro que foi gasto na Manchester Pride."

Os problemas de Manchester não são um caso isolado. A parada de Londres vem enfrentando críticas por ser muito comercial e superlotada; e Brighton enfrenta dificuldades para arcar com o custo financeiro da realização de shows em larga escala e seu policiamento.

Neste cenário, eventos menores, como o de Crewe, parecem ser a direção sendo tomada por muitas paradas do orgulho gay em 2026.

Nervosismo comercial

Mas os ventos políticos também mudaram. E parece haver menos entusiasmo comercial em favor das iniciativas de diversidade e inclusão.

O organizador da parada de Newcastle, na Inglaterra, Phil Douglas, afirma que "existe um nervosismo generalizado entre as empresas e organizações, na hora de colocar seu apoio em evidência".

"Observamos algumas delas ainda desejando nos apoiar, mas sem incluir sua logo... Elas querem evitar as reações negativas que estão prontas para serem disparadas na comunidade online."

"De forma geral, esta é uma época bastante complexa para gerenciar seu apoio ao orgulho gay", explica Douglas.

Alguns anos atrás, era impossível entrar nas redes sociais em junho (conhecido como o "mês do orgulho") sem encontrar inúmeros logotipos de empresas incorporando a bandeira do orgulho gay.

Os críticos chamavam estas ações de rainbow-washing ("maquiagem do arco-íris"). Eles defendiam que as exibições de solidariedade eram mais uma questão de marketing do que de tomada de ações significativas. Mas, agora, a presença corporativa vem diminuindo.

Segundo uma análise do jornal britânico The Guardian, as menções sobre o orgulho gay nas redes sociais pelas 10 maiores empresas sediadas ou com presença no Reino Unido caíram em 92%, em comparação com 2023. Esta queda indica que as marcas estão evitando adotar mensagens abertamente LGBT.

Foto de uma mulher na parada do orgulho gay de Manchester, com um cartaz dizendo 'lésbica não é palavrão', em inglês

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Legenda da foto, As paradas do orgulho gay assumiram uma nova frente política nos últimos anos, segundo Darren Milby

"Tem havido um recuo generalizado do apoio corporativo para causas LGBT em todo o mundo", afirma o executivo-chefe da entidade beneficente LGBT Foundation, Paul Martin.

"Temos observado que, com as mudanças políticas em alguns países e a diversidade e a inclusão sendo consideradas woke demais... não conseguimos o apoio de alguns setores, como antes era habitual."

"E isso também ocorreu com as paradas do orgulho gay", prossegue Martin. "O financiamento das empresas se retraiu, trazendo um verdadeiro desafio para os organizadores na hora de equilibrar a contabilidade."

Uma pesquisa da empresa Ipsos concluiu que a parcela de adultos britânicos que deseja que as marcas e empresas promovam direitos LGBT caiu de 52% em 2021 para 44% este ano.

As bandeiras sumiram

Em Liverpool, na Inglaterra, a polícia local não participou da parada do orgulho gay deste ano. Sua assessoria jurídica alertou que a participação de um organismo público uniformizado poderia infringir normas sobre a imparcialidade política.

Neste verão do hemisfério norte, os bombeiros e a polícia se afastaram mais uma vez.

O Serviço de Incêndios e Resgate do condado de Merseyside (onde fica a cidade de Liverpool) declarou estar adotando uma "estratégia pragmática", após uma decisão da Suprema Corte determinando que os oficiais do nordeste do país não serão autorizados a participar dos eventos.

O Serviço de Ambulâncias da região de West Midlands, no centro da Inglaterra, também deixou de participar da Birmingham Pride, com base em orientações jurídicas similares.

Nas eleições locais de maio na Inglaterra, o partido de direita radical Reform UK venceu em 14 conselhos, além dos 10 que já controlava.

Em julho, o líder do partido, Nigel Farage, declarou que concorda que os eventos devem seguir adiante, mas é contrário à sua promoção pelas autoridades locais.

No ano passado, poucas semanas depois de assumir o poder em Durham, no nordeste da Inglaterra, o novo governo da cidade, do Reform UK, retirou uma bandeira arco-íris da sede do conselho. E os membros do conselho também retiraram sua contribuição de 2,5 mil libras (cerca de R$ 17,6 mil) para a parada de Durham.

Na cidade de St. Helens, perto de Liverpool, o chefe do conselho, também do Reform UK, instruiu as autoridades a interromper sua colaboração com a parada local em todos os seus aspectos. E o conselho também retirou os cartazes do festival das bibliotecas da cidade.

Olly Alexander se apresentando na Manchester Pride em 2025

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Legenda da foto, A parada do orgulho gay de Manchester cresceu muito desde seu modesto lançamento em 1985 e começou a atrair cantores conhecidos, como Olly Alexander, no ano passado

Para explicar os cortes de financiamento, o vice-chefe do conselho de Durham, Darren Grimes (do partido Reform UK), declarou:

"Acho que ultrapassamos o louvável objetivo da igualdade gay. Chegamos ao casamento do mesmo sexo e esta foi a fronteira final."

Met Melcalf, organizador da Durham Pride, afirma que a retirada da bandeira fez com que as pessoas LGBT da comunidade "se sentissem indesejadas".

Ainda assim, o festival aconteceu. Seus organizadores declararam que foi o "maior" ano da história, levantando cerca de 25 mil libras (cerca de R$ 175 mil) de doadores individuais e sindicatos do comércio.

Além da posição do Reform UK, o novo líder do conselho de Enfield, no norte de Londres, que é do Partido Conservador, declarou que só irá hastear algumas bandeiras no lado externo do Centro Cívico de Enfield. E a bandeira arco-íris não está incluída.

A fronteira trans

O debate sobre os direitos das pessoas trans também vem alimentando a guerra cultural em torno do orgulho gay.

Algumas pessoas gays e lésbicas se descrevem como gender critical (críticos de gênero). Suas crenças incluem ceticismo em relação a alguns dos objetivos do movimento dos direitos trans.

Estas pessoas afirmam que se sentem marginalizadas pelo orgulho gay. Já algumas pessoas trans dizem que não se sentem mais seguras ao comparecer aos eventos.

Uma mulher lésbica que se descreve como crítica de gênero (e pede para se manter anônima) declarou à BBC que deixou de participar da parada do orgulho gay por acreditar que o evento, agora, é dominado pelo foco em questões trans.

Grimes é um dos mais importantes membros LGBT do Reform UK. Para ele, os eventos se afastaram do foco sobre a igualdade gay e passaram a se associar ao debate sobre identidade de gênero como um todo.

"Você matou o dragão na busca da igualdade e, agora, tudo o que sobrou foram algumas ovelhas desconexas", compara ele.

Grimes afirma que o "subsídio público" para questões LGBT passou a ser uma "mina de ouro" que alimenta "narrativas de vitimização".

Para alguns, o foco nos direitos trans é um motivo para abandonar a parada. Para outros, ele destaca a importância de eventos como a Sparkle, a maior celebração transgênero do Reino Unido.

Ela ocorre no final de junho, na Gay Village de Manchester, poucos meses antes da parada do orgulho gay. O evento deste ano trouxe shows de humorismo e música ao vivo.

Segundo Lauren, voluntária transgênero que participou do evento, "temos muita estigmatização e ódio contra nós... Existem pessoas que tentam nos empurrar de volta para a escuridão e isso realmente dificulta muito as nossas vidas."

Vigília à luz de velas, na parada do orgulho gay de Manchester de 2022

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Legenda da foto, A parada do orgulho gay de Manchester inclui tradicionalmente uma vigília com velas pelas vítimas de HIV e Aids

Conversei com outra mulher transgênero, que estava hospedada em um hotel na Gay Village de Manchester. Ela contou que quis estar na cidade para o evento, mas estava receosa de sair do hotel por questões de segurança.

A segurança também passou a ser uma das principais preocupações, especialmente depois dos eventos de julho em Berlim, na Alemanha. Abdul Ballout, de 21 anos, avançou com um carro contra a multidão durante a parada LGBT da cidade, matando uma mulher e ferindo outras 29 pessoas.

Guy Mathias, da Security Commonwealth (um grupo comercial que reúne empresas de segurança), acredita que muitos organizadores irão rever seus planos após o ataque em Berlim.

"Eventos menores, individualmente, costumam custar menos, mas ainda precisam de muitas medidas de segurança similares", explica ele.

Outros acreditam que as paradas podem criar dores de cabeça para os moradores locais.

Andy Winter, colunista do jornal Brighton Argus, compareceu às paradas dos anos 1980, como vereador de Brighton. Ele relembrou, em uma coluna, como a imprensa o difamou na época, por apoiar uma moção pró-LGBT no conselho.

Mas, no ano passado, ele escreveu que o fim de semana da parada de Brighton traz "excessos alimentados pelo álcool e pelas drogas".

"Mesmo não sendo gay, a parada do orgulho gay repercute em mim", ele conta.

"Um dos parques que frequento fica 'fechado' por 10 dias... para permitir que artistas, em sua maioria héteros, se apresentem para as pessoas que podem pagar o alto valor do ingresso."

Winter destaca que "as ruas ficam repletas de plástico e vidro quebrado. Tenho pena dos vizinhos do parque e das ruas próximas, que veem suas ruas e jardins sendo usados como toaletes."

O futuro das paradas

Estive em dezenas de paradas do orgulho gay ao longo dos anos. E Manchester nunca podia faltar.

Passei a adolescência em Ulverston, na Cúmbria (noroeste da Inglaterra). Tenho quase certeza de que eu era a única pessoa gay da cidade.

Manchester sempre pareceu ter o brilho das luzes, um lugar onde se era livre para ser você de verdade.

Estou retornando mais uma vez este ano, animado para encontrar meus amigos e curioso para ver do que se trata a nova parada voltada à comunidade.

Mas suspeito que haverá algo levemente diferente no ar desta vez — uma consciência de que, em algumas partes do país, o orgulho gay se tornou um tema controverso.

As pessoas LGBT mais jovens continuam afirmando que o orgulho gay é importante.

Uma pesquisa do instituto YouGov, realizada em 2024 entre mais de 500 pessoas LGBT britânicas com 16 a 24 anos de idade, concluiu que 90% delas afirma que a continuidade do mês do Orgulho é "muito" ou "razoavelmente" importante.

Quando me tornei um jovem adulto, acabei saindo de Ulverston para morar em Manchester. Mas, neste verão, voltei à cidade para participar da parada local, uma tradição que ainda está nos seus primórdios.

As ruas de pedras, antes familiares, pareciam muito diferentes do que eu me lembrava.

Elas estavam repletas de animados moradores locais, aplaudindo e filmando nos seus celulares, enquanto passava uma procissão marcada por bandeiras arco-íris. Na frente, uma banda de música tocava alegres hinos gay.

Parecia que eu estava a anos-luz de distância dos famosos astros do pop de Manchester, em seus palcos cobertos de logotipos de empresas.

Matt teve uma reflexão similar ao voltar para a sua cidade natal de Crewe.

"O que realmente me surpreendeu e fez com que eu me identificasse foi o fato de ser tão centralizada na família", ele conta. "Essas cidades pequenas organizam eventos que se destinam à comunidade, antes de tudo."

Enquanto olhava ao redor de Ulverston, os debates nacionais em torno do orgulho gay dos últimos anos pareciam distantes.

Fiquei envolvido pelas coisas pequenas: as pessoas rindo, a diversidade de idades dos participantes. Era uma comunidade que eu, quando adolescente, nunca imaginava que iria ver algum dia.