O plano bilionário da China para fazer uma nova revolução industrial com milhões de robôs

- Author, Laura Bicker
- Role, Correspondente na China
- Reporting from, Pequim, Hangzhou e Chengdu
- Published
- Tempo de leitura: 8 min
"Tiro um cochilo e o mundo muda", diz Chen Tianyu. Aos 28 anos, ele se mantém atualizado sobre as tecnologias mais recentes passando seu tempo livre em fábricas que estão migrando para a automação. Assim, sabe o que priorizar ao ministrar suas aulas sobre inteligência artificial (IA) e robótica.
Diante dele, cerca de 30 estudantes universitários estudam programação. Um deles digita freneticamente enquanto os olhos alternam rapidamente entre a tela e o robô: "A ideia é que ele pegue aquela peça cilíndrica e a mova para lá".
Uma fileira de robôs industriais aguarda programação e, em outra parte da sala de aula, estudantes tentam desenvolver instrumentos médicos robóticos. Enquanto os orienta, Chen afirma: "Se o mundo da IA e da robótica não precisar de você, certamente você estará entre os que serão descartados".
Para as pessoas nesta sala, este é um passo — ou melhor, um salto — em direção a um futuro que a China constrói meticulosamente: o plano de US$ 20 bilhões (ou R$ 103,1 milhões) de Xi Jinping para colocar o país na vanguarda da inovação e em concorrência direta com os Estados Unidos.
As evidências estão por toda parte. Eles estão no Instituto Técnico de Hangzhou, uma das várias escolas profissionalizantes enormes, construídas especificamente para esse fim, que visam formar a próxima geração de engenheiros com domínio tecnológico.
O campus fica nos arredores de Hangzhou, uma antiga capital imperial cujo horizonte futurista é apenas o primeiro indício de seu papel como um polo tecnológico global.
Em todo o país, há mais de 2 milhões de robôs operando nas fábricas chinesas — um número superior ao de qualquer outro lugar —, e essa quantidade continua a crescer em ritmo extraordinário.
É um compromisso que certamente mudará o mundo, assim como ocorreu na última vez em que a economia chinesa passou por uma transformação gigantesca. O país já exporta seus robôs para todo o globo: mais da metade dos robôs industriais do mundo é fabricada na China.
O que não está tão claro é o impacto de uma automação tão abrangente em um país que ocupa o centro da manufatura, do comércio e da inovação globais. O que isso significa para a mão de obra humana da China? E como poderíamos mensurar o custo dessa transformação em um regime que controla as informações de forma tão rígida?
O futuro dos trabalhadores chineses é incerto diante da revolução industrial que o mundo acompanha: redes de energia solar de última geração, horários de pico silenciosos graças aos veículos elétricos e máquinas que se movem mais rápido do que Usain Bolt.
No fim de semana, a China sediou a segunda edição dos Jogos Mundiais de Humanoides, onde robôs disputaram lutas de boxe, corridas de velocidade e marchas.
O que impulsiona esse espetáculo é uma outra revolução, menos visível, que ocorre dentro de fábricas e salas de aula.
A BBC visitou instalações industriais onde robôs que não têm aparência humana, nem dançam ou saltam no palco, soldam, pintam, içam cargas, montam peças e trabalham ininterruptamente, sem pausas ou benefícios trabalhistas.
Alguns são projetados para construir outros robôs. Também estivemos em centros de treinamento onde a China prepara as pessoas que trabalharão ao lado de sua força de trabalho robótica.
É uma oportunidade de acompanhar de perto o que Xi chama de "novas forças produtivas" da China — e como elas podem remodelar o país.

No chão de fábrica da cidade de Chengdu, no sul do país, o antigo e o novo trabalham lado a lado.
Uma linha de montagem composta por cerca de 30 homens e mulheres de meia-idade realiza tarefas de parafusamento, perfuração e polimento no principal produto da CRP Technology: um braço robótico capaz de executar diversas funções industriais.
No mesmo ambiente, quatro jovens engenheiros estão reunidos em torno de um console, tentando decifrar a programação de um protótipo — um novo robô que, esperam eles, ajudará a construir outros robôs.
Um deles, Pang Kai, que tem 31 anos e integra a equipe de pesquisa e desenvolvimento, empurra a estrutura elegante do robô pelo recinto.
Afinal, essa futura força de trabalho da China ainda não está pronta para entrar em ação plenamente; por enquanto, o robô só consegue realizar movimentos simples e repetitivos, como ler um código QR.
"Talvez daqui a seis meses ele consiga realizar outra tarefa", diz Pang, com um sorriso no rosto. É um longo caminho a se percorrer, e a equipe celebra cada pequena conquista.
A CRP Technology, que emprega 300 pessoas, fabrica braços robóticos há nove anos. Cada braço pode ser adaptado às necessidades de uma fábrica para auxiliar na produção de automóveis, eletrônicos ou turbinas eólicas. A empresa diz que um único braço pode ser programado para executar mais de 90% das tarefas repetitivas.
Os engenheiros também se perguntam se, um dia, poderão substituir a mão de obra da própria empresa. "Queremos que nosso novo robô seja como os seres humanos. Esperamos que ele consiga pensar por conta própria", diz Pang. "Precisamos desse tipo de robô porque, em dez anos, talvez não tenhamos trabalhadores suficientes na China."

A redução da população e o envelhecimento da força de trabalho são mais um motivo pelo qual Pequim tem pressa em revolucionar suas fábricas.
Até 2035, mais de um terço da população da China terá mais de 60 anos, segundo estimativas oficiais. O país também perderá quase 60 milhões de habitantes na próxima década — um número quase equivalente à população da França —, de acordo com algumas projeções.
A esperança é que o aumento da automação preencha essa lacuna iminente na força de trabalho antes que ela comece a afetar uma economia que já apresenta ritmo lento.
No entanto, a velocidade dessa transição é fundamental. Cerca de 120 milhões de pessoas ainda trabalham no setor manufatureiro. Se a China avançar rápido demais, poderão ocorrer perdas de empregos, o que representa um golpe catastrófico para milhões de pessoas que dependem dos salários das fábricas.
"Em teoria, as máquinas podem trabalhar 24 horas por dia, o que é certamente uma vantagem em relação aos trabalhadores humanos. Mas as máquinas também exigem manutenção. Precisamos de tempo para isso todos os dias e, mensalmente, a linha de produção também requer inspeção e reparos", diz Cao Li, vice-presidente da Leapmotor, fabricante de veículos elétricos.
Cada vez mais populares na Europa e no Reino Unido, os carros da empresa — acessíveis e com foco em tecnologia — são montados na fábrica de Hangzhou, com robôs auxiliando o processo em todas as etapas. Ao final da linha de montagem, surgem mais trabalhadores humanos.
A empresa conta com mais de 25 mil funcionários, e centenas deles realizam as verificações finais à medida que os veículos novos passam pela linha. Chegará o dia em que eles não serão mais necessários?
"É perfeitamente possível", diz Cao. "E isso pode acontecer relativamente rápido. Nas áreas de produção, incluindo estampagem, soldagem e pintura, já alcançamos praticamente 100% de automação."

A China leva vantagem sobre os EUA graças à sua enorme base industrial. Motores, baterias, eletrônicos, engrenagens, sensores — tudo o que é necessário para construir a estrutura de um robô está prontamente disponível.
"A China também tem uma visão. Tem um plano. Eles sabem onde querem estar daqui a cinco anos. O planejamento ocorre em alto nível, mas é desdobrado para as regiões e municípios", afirma a Susanne Bieller, secretária-geral da Federação Internacional de Robótica.
"Se você quiser construir um robô em Shenzhen, encontrará um ecossistema completo. Leva-se menos de uma hora para obter os componentes necessários para fabricá-lo. Na Europa, isso pode levar até uma semana."
No entanto, ela reconhece que, embora a China seja eficiente na construção da estrutura física, os EUA ainda lideram o desenvolvimento do "cérebro" — o que inclui a criação da IA para programar os robôs.
Ainda assim, empresas chinesas como a DeepSeek e a Moonshot vêm lançando novos modelos de IA que, segundo elas, podem competir com as principais empresas americanas.
Impulsionada por uma abordagem de código aberto, conhecida como open-source, na qual startups de IA compartilham seus códigos, a inovação chinesa conseguiu reduzir a distância em relação aos líderes mais rapidamente do que o esperado, apesar dos controles de exportação dos EUA sobre chips avançados críticos.
Analistas acreditam agora que a próxima etapa dessa corrida será definida não por quem possui o melhor modelo de linguagem, mas por quem conseguir incorporar essa inteligência a milhões de máquinas.

É por isso que a China também está investindo na formação de uma geração de estudantes que aprendem a imaginar o que pode vir a seguir.
No Instituto Técnico de Hangzhou, por exemplo, os jovens podem ingressar a partir dos 15 anos. E a escala do que é ensinado pode impressionar. Há um prédio inteiro dedicado a motores e aeronáutica, além de um andar de acesso restrito para alunos que trabalharão para manter a China na vanguarda do processamento de terras raras — outra commodity crucial na disputa com Washington.
Alguns veem isso como uma solução para a taxa de desemprego juvenil persistentemente alta na China, onde um em cada cinco jovens enfrenta dificuldades para encontrar trabalho.
"Nossos alunos são muito requisitados e podem até ser contratados antecipadamente por empresas. Eles não precisam se preocupar com emprego, e realizamos competições como parte de seu treinamento", diz Chen, o jovem professor.
"É melhor encontrar seu lugar na onda tecnológica. No processo de progresso, mudanças estruturais são inevitáveis, e é exatamente nessas mudanças estruturais que residem as futuras oportunidades de emprego para os estudantes."
No entanto, a China ainda enfrenta desafios econômicos sérios, desde uma crise imobiliária que se arrasta até a enorme dívida dos governos locais e um consumo persistentemente baixo.
Não está claro se — ou como — a revolução promovida por Pequim resolverá esses problemas, e é difícil avaliar o que pensam, sobre as mudanças que se aproximam, aqueles cujos empregos estão ameaçados. Será que os robôs criarão prosperidade para eles ou simplesmente tomarão muitos de seus postos de trabalho?
"Meus alunos me perguntam o que acontecerá no futuro", diz Chen. "Eu respondo que não sei. A tecnologia muda muito rápido. Mas não podemos ficar parados e acomodados. Precisamos avançar para ver do que somos capazes."




























