A rede de tráfico de cocaína comandada por alunos de uma das faculdades mais famosas dos EUA

    • Author, Sheila Flynn
    • Role, Da BBC News nos EUA
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  • Tempo de leitura: 6 min

Eles vieram para a Penn State — a universidade do Estado da Pensilvânia — de todos os lugares dos Estados Unidos: atletas universitários e alunos de destaque atraídos pela forte reputação acadêmica e pelas oportunidades sociais da universidade.

Agostino Abbatiello se formou em uma prestigiosa escola católica só para meninos em Long Island, Nova York. Durante o ensino médio, ele se autodenominava um "coach de vida" — o tipo de pessoa que vivia de acordo com o código moral da escola, que pregava "fazer a coisa certa na hora certa porque é a coisa certa a se fazer, independentemente de quem esteja observando".

Na Penn State, no entanto, sua adesão a esse lema desmoronou.

Abbatiello, de 24 anos, foi preso e indiciado esta semana, acusado de ser o líder de uma organização de tráfico de drogas que incluía membros de fraternidades locais — organizações exclusivamente masculinas presentes em muitos campi universitários dos EUA. Nos EUA, algumas fraternidades são notórias por submeterem seus membros em potencial a rituais de iniciação elaborados, conhecidos como hazing. Ao todo, 13 estudantes, entre atuais e antigos, foram indiciados.

Mas, em vez de submeter jovens universitários a desafios de consumo de álcool, os promotores afirmam que os jovens criaram uma quadrilha de tráfico de drogas e forçaram alguns estudantes a processar e embalar cocaína.

O advogado de Abbatiello, que se entregou à polícia da Pensilvânia, não respondeu ao pedido de comentário da BBC.

'Horror'

A Universidade Estadual da Pensilvânia expressou seu horror diante das alegações contra seus alunos atuais e antigos.

"Atividades criminosas, incluindo hazing, como esta, não têm lugar em nossa instituição, e cooperaremos com as autoridades policiais em tudo o que pudermos", disse Andrea Dowhower, vice-presidente de assuntos estudantis, em um comunicado.

De certa forma, o esquema, conforme descrito pelos promotores, lembra um roteiro de filme de Hollywood: extenso e sofisticado, criado por jovens que haviam acabado de sair do ensino médio.

As autoridades alegam que os suspeitos utilizaram aplicativos como Snapchat e Venmo. Semelhanças entre os nomes de usuários e seus nomes reais acabaram ajudando na sua captura.

Eles estão sendo acusados de obrigar candidatos a membros da fraternidade a cortar e embalar a cocaína. Quando os policiais invadiram a casa da fraternidade, um dos líderes do esquema alegou ter pensado que era uma pegadinha — até que a polícia usou uma arma de choque contra ele ao descobrir um carregamento de drogas e uma arma.

"Não havia nada de amador ou infantil nesse tipo de conduta", disse o procurador-geral da Pensilvânia, Dave Sunday, ao anunciar o indiciamento. "Esta era uma organização de tráfico de alto nível para esta região da Pensilvânia."

De acordo com um relatório obtido pela BBC, membros da fraternidade Delta Upsilon vendiam cocaína obtida junto a Abbatiello, membro da fraternidade Sigma Chi. Abbatiello recebia as drogas de um fornecedor da Pensilvânia com quem Lars Zeepvat, também membro da Sigma Chi, já havia feito negócios.

Mas quando essa fonte de cocaína se esgotou, Abbatiello supostamente "buscou uma nova fonte" e encontrou uma pessoa "em sua cidade natal, em Nova York, que lhes forneceria quantidades ainda maiores de cocaína".

Depois disso, segundo o relatório, Zeepvat percebeu "uma mudança em Abbatiello, e ficou claro para ele que Abbatiello agora vendia drogas para obter lucro, em vez de consegui-las para si mesmo e para alguns amigos".

Zeepvat disse que Abbatiello lhe perguntou se ele "queria ganhar dinheiro e ajudá-lo a distribuir cocaína", alega o relatório.

Não demorou muito para que Zeepvat acompanhasse Abbatiello em entregas ou dirigindo para "comprar grandes quantidades".

"Eles dirigiam até um local com base em um endereço fornecido por Abbatiello, um homem entregava uma sacola com cocaína... e eles retornavam com a sacola para a universidade da Pensilvânia e a entregavam a Abbatiello", diz o relatório.

Dois membros da fraternidade Delta Upsilon, Mohammed Huraibi e Thomas Robinson — que também enfrentam acusações criminais — tornaram-se sócios no negócio de cocaína em 2023, segundo os promotores, e a dupla começou a fazer compras cada vez maiores de cocaína de Abbatiello.

Segundo o relatório, no final de 2023, "vários dos aspirantes a membros da fraternidade Delta Upsilon foram usados para embalar as drogas em pacotes de meio grama para venda".

O procurador-geral descreveu "um padrão de eventos que demonstrava que cortar e embalar cocaína era, para alguns candidatos a membros da fraternidade, uma forma de doutrinação nas fraternidades Delta Upsilon e Sigma Chi".

Os advogados de Zeepvat e Huraibi não responderam aos pedidos da BBC por comentários. Não havia advogado listado nos autos do processo para Robinson e a BBC não conseguiu contatá-lo.

No outono de 2024, o esquema que começou com alguns membros da fraternidade vendendo entre si estava em plena expansão, e Robinson e Abbatiello supostamente estavam recrutando mais ajuda, de acordo com o relatório. Amigos e membros da fraternidade ajudavam na embalagem, entrega e distribuição.

Ao mesmo tempo, porém, a polícia estava investigando tudo, conforme revelaram documentos judiciais de 2024 obtidos pela CBC News.

De acordo com esses documentos, um informante confidencial disse à polícia que um homem usando o apelido "T-Rob" estava vendendo cocaína na sede da fraternidade Delta Upsilon e aceitando pagamentos via Venmo com o nome de usuário "Tom-Robinson".

As autoridades não demoraram a rastrear a origem do dinheiro até o estudante da Penn State. Posteriormente, a polícia fez uma busca em seu quarto na fraternidade Delta Upsilon em dezembro de 2024, informou a CBS.

Robinson pensou que era uma brincadeira. Ao não obedecer às ordens dos policiais, foi atingido por uma arma de eletrochoque, segundo a CBS, citando os registros do tribunal.

Segundo a CBS, a polícia encontrou um saco com 220 gramas de maconha, frascos de comprimidos, apetrechos para consumo de drogas, uma pistola e um carregador com munição.

Ele então apontou Abbatiello como seu fornecedor para a polícia — e o resto foi revelado.

No relatório obtido pela BBC, o co-réu Zeepvat descreveu Abbatiello como o "maior distribuidor de cocaína da Universidade Estadual da Pensilvânia" — ele foi acusado de vários crimes graves.

Essas acusações incluem múltiplos crimes de posse ilegal de drogas com intenção de distribuição e conspiração. Ele não compareceu a uma audiência em 17 de agosto, mas se entregou no dia seguinte.

Robinson, Zeepvat e Huraibi também foram acusados de crimes graves. A maioria dos outros suspeitos enfrenta acusações de contravenções.

A Penn State informou que a fraternidade Delta Upsilon está sujeita a suspensão provisória. A Sigma Chi opera fora da supervisão da universidade.

O diretor executivo da Sigma Chi, Michael Church, afirmou em um comunicado divulgado pela CBS que a conduta alegada foi "uma violação flagrante de nossos valores", que os membros acusados foram suspensos e que a fraternidade envolvida também foi suspensa provisoriamente.

O diretor executivo da Delta Upsilon, Justin Kirk, disse que a fraternidade está trabalhando em estreita colaboração com a Penn State e os investigadores, e que os suspeitos associados à fraternidade foram "expulsos, suspensos ou renunciaram", de acordo com um comunicado à imprensa americana.

"Temos o prazer de informar que os membros mais importantes desta organização de tráfico de cocaína foram localizados e enfrentarão o devido processo legal", disse o procurador-geral do Estado.

"Essas são acusações muito sérias e os próximos passos serão as audiências preliminares."