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Os navios nazistas naufragados que estão emergindo no rio Danúbio
- Author, Lauren Goldenberg
- Role, BBC Travel
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
Neste mês de agosto, baixas históricas do nível da água do rio Danúbio expuseram pelo menos 20 navios de guerra alemães perto de Prahovo, no leste da Sérvia.
Cascos enferrujados e mastros quebrados emergiram das águas do rio. São os restos da frota nazista do mar Negro, que foi deliberadamente afundada durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Os destroços já vieram à superfície em secas anteriores. Mas o calor e a seca extrema do verão de 2026 fizeram com que dezenas de navios voltassem a ser observados no leito do Danúbio.
Acredita-se que alguns deles contenham armas e explosivos, transformando este trecho de um dos grandes rios navegáveis da Europa em um campo de batalha visível e assustador.
Para os visitantes que navegam pelo Danúbio neste verão, a seca revela um cenário e uma história que normalmente ficam escondidos nas águas do rio.
História de 82 anos
Tudo começou mais de oito décadas atrás.
Em 1944, as forças alemãs se retiravam do front oriental, com o avanço dos soviéticos na região. Elas deixaram uma frota de cerca de 200 navios nazistas do mar Negro, encalhados em uma área que caía rapidamente nas mãos da União Soviética.
O rio Danúbio oferecia uma rota de escape. Mas as Portas de Ferro (um trecho do rio estreito e historicamente traiçoeiro, localizado entre a Sérvia e a Romênia) criava um gargalo considerável.
Em setembro de 1944, o contra-almirante alemão Paul-Willy Zieb (1892-1972) ordenou que mais de 200 navios fossem afundados, frente à aproximação do Exército Vermelho da URSS. O objetivo era evitar sua captura e deter o avanço soviético.
A maioria dos navios permanece submersa no rio desde então. Um dos motivos é que muitos deles ainda contêm armamentos que não explodiram e representam riscos à navegação.
A Sérvia lançou um programa estimado em 30 milhões de euros (cerca de R$ 182 milhões) para retirar alguns dos navios, mas o progresso é lento devido às complexidades de limpar o leito do rio com segurança.
Para os viajantes, esta é uma visão marcante do segundo maior rio da Europa. Com cerca de 2.850 km de extensão e atravessando 10 países, o Danúbio presenciou quedas de impérios e alianças ao longo de vários séculos.
O organizador de viagens Kenneth Reece percorreu recentemente o baixo Danúbio a bordo do barco Avalon Passion. Ele conta que os restos deixados pela turbulenta história da região os acompanharam por toda a viagem.
"Visitamos fortalezas medievais, ouvimos histórias sobre a vida no regime comunista e ditatorial, aprendemos sobre as guerras que formaram esta região e viajamos por lugares onde parte dessa história ainda vive na memória das pessoas", conta Reece.
"Ouvir sobre os destroços alemães da Segunda Guerra Mundial afundados no Danúbio trouxe mais um atrativo... A história não estava apenas nos museus ou monumentos. Parte dela estava literalmente embaixo dos nossos pés."
Outras revelações
Os navios nazistas não são os únicos restos emergentes da redução das águas do Danúbio.
Em agosto, a seca também expôs uma motocicleta Wehrmacht do exército alemão em Budapeste, na Hungria, e uma bomba britânica de 700 kg perto de Virt, na Eslováquia. Ela foi detonada com segurança.
Em Gigen, na Bulgária, a queda do nível da água revelou os restos da antiga ponte romana de Constantino, do século 4°. E, perto de Ryahovo, os arqueólogos desenterraram ossos e presas peludas de mamutes de milhares de anos atrás.
"Para os arqueólogos, estes momentos são extremamente valiosos", conta à agência de notícias Reuters Pavel Popov, do Museu Histórico Regional de Pleven, na Bulgária.
"Eles oferecem uma rara oportunidade de observação, documentação e estudo no seu ambiente real."
As secas e flutuações do nível da água não são novidade no Danúbio.
A Europa é o continente que vem se aquecendo com mais rapidez, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copérnico, da União Europeia. Sua velocidade de aquecimento é maior que o dobro da média mundial.
O aumento das temperaturas intensifica os extremos de calor e altera os padrões de chuva, o que contribui para as repetidas quedas do nível da água, prejudicando a navegação ao longo do rio.
"O Danúbio revela alertas do nosso passado e, ao mesmo tempo, talvez nos dê um aviso sobre o nosso futuro", explica Reece.
O que o baixo nível da água significa para os viajantes
Os visitantes da região já estão sentindo as consequências da seca.
O baixo nível das águas deste verão levou as operadoras de navios do Danúbio a cancelar viagens, alterar itinerários, transferir passageiros entre navios e usar ônibus para o transporte, em trechos do rio sem condições de navegabilidade.
E as mudanças do rio também podem transformar a paisagem que os viajantes encontram pelo caminho.
"Nunca percebemos que navegávamos diretamente sobre os navios de guerra alemães afundados", conta Suzanna Fulton. Ela navegou recentemente pelo Danúbio no navio Viking Honir.
Para Reece, observar as evidências da história do Danúbio do tempo da guerra fez com que a beleza e a serenidade do rio despertassem emoções mais fortes.
"Atualmente, você pode se sentar no convés de um navio de cruzeiro no rio, com uma taça de vinho, e observar todos esses belos países passando", prossegue ele. "Mas este mesmo cenário presenciou guerras, o fascismo, a opressão e enorme sofrimento humano."
"Acho que isso foi o que mais permaneceu comigo. O Danúbio não nos leva simplesmente para atravessar a Europa. De muitas formas, ele nos leva através da história da Europa."
Como observar as revelações do Danúbio
Destroços nazistas — Prahovo, Sérvia:
Pelo menos 20 destroços de navios ficaram visíveis no leito do rio neste verão, em Prahovo, perto da fronteira entre a Sérvia e a Romênia.
Acredita-se que alguns deles ainda contenham armas ou explosivos e, por isso, devem ser observados das margens, sem aproximação. A visibilidade muda à medida que o nível da água sobe ou desce.
Restos de mamutes com pelos — Ruse, Bulgária:
Especialistas do Museu Histórico Regional de Ruse recuperaram ossos expostos perto da aldeia búlgara de Ryahovo, em julho.
Após conservação e estudo, eles devem ser expostos no museu, a cerca de 30 km do local onde foram encontrados.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.