Como derretimento de gelo na Groenlândia faz baleias migrarem para áreas antes inacessíveis

    • Author, Victoria Gill
    • Role, Da BBC News
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  • Tempo de leitura: 5 min

O gelo marinho tem desaparecido do leste da Groenlândia, permitindo que baleias gigantes aproveitem a oportunidade e se desloquem para áreas antes inacessíveis.

Essa é a conclusão de um estudo que durou décadas e registrou com imagens centenas das maiores baleias do mundo, incluindo baleias-jubarte, baleias-minke e baleias-comuns, se alimentando em mares sem gelo ao longo da costa durante o verão.

Nenhum desses mamíferos marinhos nadava por essas águas no passado, pois estavam impedidos de acessar as águas costeiras devido ao gelo. Agora, com as mudanças climáticas aquecendo o mar e derretendo esse gelo, os animais se adaptaram.

Os cientistas classificam o fenômeno como períodos sazonais de intensa atividade alimentar no Ártico, reflexo de uma profunda mudança nas condições oceânicas ao largo do leste da Groenlândia.

A mudança é drástica: os levantamentos realizados a partir de navios na região não registraram um único avistamento de baleia-jubarte até 2006.

Em 2007, foram avistadas sete baleias-jubarte e, em 2024, já havia 150 avistamentos desses animais gigantes a partir de navios.

Os primeiros levantamentos aéreos sistemáticos de baleias-de-barbatana — um grupo que inclui baleias-comuns, baleias-minke e baleias-jubarte — ao largo da costa leste da Groenlândia — foram realizados pelos pesquisadores durante os verões de 2015 e 2024.

Eles combinaram essas informações com os rastros de 15 baleias marcadas com transmissores via satélite e depoimentos de caçadores inuítes, construindo um panorama do que o pesquisador principal, Mads Peter Heide-Jørgensen, chamou de "grande mudança no regime ecológico".

Estima-se que 4 mil baleias-jubarte, 6 mil baleias-comuns e 6 mil baleias-minke visitaram o Mar da Groenlândia no verão de 2024.

Heide-Jørgensen, do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia, disse à BBC News que as mudanças na região são "provavelmente as mais radicais que podemos ver em qualquer lugar no subártico".

Essa mudança é impulsionada pelo aumento da temperatura da água do mar e pela disponibilidade de alimentos. As baleias parecem estar se alimentando de peixes que migraram para as águas mais quentes do leste da Groenlândia.

Eles estimaram que as três espécies de baleias consumiriam pelo menos 800 mil toneladas de peixes e krill durante a temporada de alimentação de verão.

Este estudo não deixa claro se a mudança reflete um aumento geral nas populações dessas espécies de baleias ou apenas uma redistribuição a partir de outras áreas.

Outros especialistas consultados pela BBC manifestaram preocupação com o fato de o estudo sugerir uma entrada maciça de animais provenientes da Groenlândia Ocidental. Essa é uma questão delicada na Groenlândia, país onde algumas baleias são caçadas.

Mas os cientistas afirmaram que suas descobertas sugerem que essas baleias-de-barbatana "oportunistas" parecem estar se adaptando e podem até estar se beneficiando da mudança.

Outras espécies do Ártico, no entanto, estão "em apuros agora", explicou Heide-Jørgensen.

Animais como narvais e belugas estão compartilhando o habitat com essas outras baleias, ou até mesmo sendo deslocados por elas.

"Para algumas espécies, as mudanças climáticas não são necessariamente um problema – elas abrem novas oportunidades", disse Heide-Jørgensen, "mas outras espécies estão perdendo seu habitat".

O estudo foi publicado na revista Frontiers in Marine Science.