Como derretimento de gelo na Groenlândia faz baleias migrarem para áreas antes inacessíveis

A imagem foi capturada de cima por um drone. No lado direito da imagem, quatro enormes baleias-fin — seus corpos alongados totalmente visíveis na água azul cristalina — nadam em grupo. Dois pequenos barcos de pesquisa parecem minúsculos perto dos mamíferos marinhos, observando-os a uma distância segura — eles estão nos cantos superior e inferior esquerdos da imagem.

Crédito, Fernando Ugarte

Legenda da foto, Baleias-comuns se alimentam nas águas livres de gelo do leste da Groenlândia, enquanto cientistas observam de seus barcos
    • Author, Victoria Gill
    • Role, Da BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 5 min

O gelo marinho tem desaparecido do leste da Groenlândia, permitindo que baleias gigantes aproveitem a oportunidade e se desloquem para áreas antes inacessíveis.

Essa é a conclusão de um estudo que durou décadas e registrou com imagens centenas das maiores baleias do mundo, incluindo baleias-jubarte, baleias-minke e baleias-comuns, se alimentando em mares sem gelo ao longo da costa durante o verão.

Nenhum desses mamíferos marinhos nadava por essas águas no passado, pois estavam impedidos de acessar as águas costeiras devido ao gelo. Agora, com as mudanças climáticas aquecendo o mar e derretendo esse gelo, os animais se adaptaram.

Os cientistas classificam o fenômeno como períodos sazonais de intensa atividade alimentar no Ártico, reflexo de uma profunda mudança nas condições oceânicas ao largo do leste da Groenlândia.

A imagem mostra a cauda de uma baleia-jubarte emergindo de águas azuis e ligeiramente agitadas, com icebergs ao fundo. Trata-se de uma baleia-jubarte mergulhando e se alimentando entre o gelo marinho fragmentado do leste da Groenlândia.

Crédito, Fernando Ugarte

Legenda da foto, Uma baleia-jubarte se alimentando em águas costeiras subárticas

A mudança é drástica: os levantamentos realizados a partir de navios na região não registraram um único avistamento de baleia-jubarte até 2006.

Em 2007, foram avistadas sete baleias-jubarte e, em 2024, já havia 150 avistamentos desses animais gigantes a partir de navios.

Os primeiros levantamentos aéreos sistemáticos de baleias-de-barbatana — um grupo que inclui baleias-comuns, baleias-minke e baleias-jubarte — ao largo da costa leste da Groenlândia — foram realizados pelos pesquisadores durante os verões de 2015 e 2024.

Eles combinaram essas informações com os rastros de 15 baleias marcadas com transmissores via satélite e depoimentos de caçadores inuítes, construindo um panorama do que o pesquisador principal, Mads Peter Heide-Jørgensen, chamou de "grande mudança no regime ecológico".

Estima-se que 4 mil baleias-jubarte, 6 mil baleias-comuns e 6 mil baleias-minke visitaram o Mar da Groenlândia no verão de 2024.

A imagem mostra um navio de pesquisa com três pessoas a bordo, aproximando-se de uma enorme baleia-fin que nada na superfície de águas calmas. As montanhas da Groenlândia são visíveis ao fundo. O corpo escuro, longo e brilhante da baleia e sua pequena barbatana dorsal são visíveis acima da linha d'água. Um cientista está na proa do navio com o que parece ser uma arma. Trata-se de uma pistola de dardos via satélite, que permite aos pesquisadores fixar dispositivos de rastreamento na pele das baleias à distância, sem ferir o animal.

Crédito, Fernando Ugarte

Legenda da foto, Em algumas baleias, os pesquisadores colocaram dispositivos de rastreamento por satélite para acompanhar seus movimentos sazonais

Heide-Jørgensen, do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia, disse à BBC News que as mudanças na região são "provavelmente as mais radicais que podemos ver em qualquer lugar no subártico".

Essa mudança é impulsionada pelo aumento da temperatura da água do mar e pela disponibilidade de alimentos. As baleias parecem estar se alimentando de peixes que migraram para as águas mais quentes do leste da Groenlândia.

Eles estimaram que as três espécies de baleias consumiriam pelo menos 800 mil toneladas de peixes e krill durante a temporada de alimentação de verão.

Uma imagem aérea mostra seis narvais em mar aberto - seus corpos e presas claramente visíveis logo abaixo da água azul-escura.

Crédito, Carsten Egevang

Legenda da foto, Enquanto algumas baleias se beneficiam do aquecimento das águas, espécies do Ártico como os narvais estão perdendo habitat

Este estudo não deixa claro se a mudança reflete um aumento geral nas populações dessas espécies de baleias ou apenas uma redistribuição a partir de outras áreas.

Outros especialistas consultados pela BBC manifestaram preocupação com o fato de o estudo sugerir uma entrada maciça de animais provenientes da Groenlândia Ocidental. Essa é uma questão delicada na Groenlândia, país onde algumas baleias são caçadas.

Mas os cientistas afirmaram que suas descobertas sugerem que essas baleias-de-barbatana "oportunistas" parecem estar se adaptando e podem até estar se beneficiando da mudança.

Outras espécies do Ártico, no entanto, estão "em apuros agora", explicou Heide-Jørgensen.

Animais como narvais e belugas estão compartilhando o habitat com essas outras baleias, ou até mesmo sendo deslocados por elas.

"Para algumas espécies, as mudanças climáticas não são necessariamente um problema – elas abrem novas oportunidades", disse Heide-Jørgensen, "mas outras espécies estão perdendo seu habitat".

O estudo foi publicado na revista Frontiers in Marine Science.