Esquerda que ri de 'CEO de MEI' não entende os sonhos do novo trabalhador, diz antropóloga

Pessoas em fila de ônibus mexem em celular. Ao fundo, ônibus cheio com pessoas em pé
Legenda da foto, Redes sociais ampliaram capacidade de sonhar. E uma rede de influenciadores se consolidou no Brasil para surfar em cima desses sonhos, diz antropóloga Rosana Pinheiro-Machado
  • Published
  • Tempo de leitura: 20 min

No laboratório que dirige na University College Dublin, na Irlanda, a antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado olha com uma lupa para um fenômeno que se repete em países que tiraram milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas: o desejo de querer mais.

No Brasil, na Índia ou nas Filipinas, enquanto experimentavam uma mobilidade social inédita, milhões de pessoas adquiriram bens e passaram a ver de perto ou pela tela do celular a conquista dos outros.

A capacidade de sonhar da população, diz Pinheiro-Machado em entrevista à BBC News Brasil, atingiu assim níveis que nunca havia atingido antes, "porque a gente aspira tudo aquilo que a gente pode ver".

"A gente está falando de milhões de pessoas que, ao longo de gerações, tiveram essa capacidade de aspirar ampliada e que hoje encontram no digital uma promessa fácil e rápida que parece solucionar todos os problemas da vida: tempo, dinheiro e respeito", explica.

Mas as pesquisas de Pinheiro-Machado, que acompanham milhões de "aspirantes a empreendedores digitais" nas redes sociais, chegam a uma conclusão desoladora: pouquíssimos de fato conseguem realizar esse sonhos no Brasil.

E aí vem a raiva, a frustração... E o direcionamento da culpa: ao Estado que só atrapalha, à "vizinha preguiçosa" que ganha Bolsa Família enquanto eu tento crescer e a mim mesmo, que preciso mudar o meu mindset e me esforçar mais.

"Ao mesmo tempo em que poderia ser lógico que a frustração dessas pessoas levaria a um desencantamento com esse mundo do 'marketing digital', o que a gente pode dizer a partir das pesquisas até o momento é que elas culpam a si próprias pelo fracasso", diz a antropóloga, professora de estudos globais e diretora do laboratório Digital Economy and Extreme Politics.

"E aí dobram a aposta no investimento em pagar mais um coach, em tentar de novo, em continuar mais uma noite sem dormir."

Esse cenário se dá em um fenômeno essencialmente brasileiro, segundo Pinheiro-Machado, com repercussões claras na política. No país, ela diz, se consolidou uma legião de influenciadores que "surfam nos sonhos dos outros", ao mesmo tempo em que propagam ideias caras à direita radical.

"E eles estão surfando sozinhos nessa explosão de aspirações da sociedade brasileira, colocando uma ideia de que para você crescer é só você sozinho."

Somando a esse cenário a carência de proteções trabalhistas e a precarização de trabalhos "plataformizados" — em que Pinheiro-Machado inclui desde entregadores de aplicativo à psicóloga que gasta horas no Instagram para conseguir pacientes —, é possível ter uma ideia das dificuldade que o governo do presidente Luiz Inácio Lula de Silva (PT) pode encontrar para falar com essa nova classe de aspirantes digitais.

"A população brasileira aumentou sua capacidade de aspirar, em grande medida, pelos governos do PT. Mas o que se faz com isso? Não pode simplesmente abrir a janela da aspiração e fechar a janela. É precisa oferecer recursos para continuar as aspirações e não frustrá-las", diz a pesquisadora.

"Aspiração não é mais só ter emprego pleno. Aspiração é por respeito, por conforto e dignidade."

É uma incompreensão que não vem só do governo, mas também de uma "esquerda mais intelectualizada" e uma classe média que olham com deboche para grupos que se classificam, por exemplo, como CEO (termo usados por executivos de grandes empresas) de uma lojinha online no Instagram.

"Minha proposta não é ridicularizar esse processo, é o oposto. É entender que essas pessoas estão buscando um título que é o da moda, que traz dignidade, que se sentem chiques."

"Ela consegue escolher como ela vai ser chamada. E não é como a sociedade definiu que ela é vai ser chamada. Isso é muito poderoso. Por isso que a gente precisa entender isso com empatia", defende.

Veja os principais trechos da entrevista de Rosana Pinheiro-Machado à BBC News Brasil:

Rosana  sentanda numa cadeira, num cenário de escritório desfocado ao fundo. Ela veste uma roupa de calça e blazer verde claro.
Legenda da foto, Rosana Pinheiro-Machado estuda a nova classe aspiracional no Brasil e no mundo

BBC News Brasil - O trabalho da senhora fala sobre como as redes sociais exacerbaram uma "classe aspiracional" no Brasil, que olha a vida "boa" de alguém que posta viajando, comprando, se divertindo, e deseja ter aquilo. Mas em que momento essa aspiração se funde à política?

Rosana Pinheiro-Machado - Essa formação de classes aspiracionais no Brasil é um movimento gradual a partir dos anos 1980, dos anos 1990, e, depois, nos anos 2000.

Depois de 2015, com a explosão de redes sociais, a gente vai ter grupos olhando para coisas que muitas vezes nunca pensou que poderia ter. Adquirir não só algo que eu vejo que as pessoas da minha rede social tem, mas muito além...

Isso, claro, faz com que a capacidade de sonhar da população atinja níveis que nunca tinha atingido antes, porque a gente aspira tudo aquilo que a gente pode ver.

Depois, a gente tem a pandemia, que é muito importante não só porque todo mundo ficou mais conectado online, mas principalmente porque o pós-pandemia fez com que uma rede muito específica de influencers se consolidasse no Brasil com uma promessa de renda extra digital.

A gente sempre teve influencers no Brasil, mas a consolidação de uma rede com valores muito específicos sobre trabalho e política vai se consolidar a partir da pandemia, oferecendo oportunidade para as pessoas poderem trabalhar mais de casa, fazer uma renda extra.

Com isso, prometem um sonho, de você ter uma Ferrari, de você ter uma casa, para você ter a vida que sempre sonhou e para que seus filhos possam ter acesso a coisas que você não teve.

Isso, em meio à precariedade no Brasil, se torna uma oportunidade.

Essa rede específica do chamado "marketing digital" vai fazer com que esse universo político e dos sonhos se conectem mais.

Eles sempre estiveram conectados de alguma maneira, porque a política da aspiração individual é uma política que não é uma da aspiração coletiva.

Mas, a partir desse fenômeno, principalmente via influencers do marketing digital, a gente vai ter algo completamente novo que é: uma explosão de pessoas vendendo sonhos, surfando nos sonhos da população brasileira.

BBC News Brasil - E qual é o perfil dessa rede de influencers?

Pinheiro-Machado - Esse campo do marketing digital tem o completo monopólio do empreendedorismo digital hoje no Brasil. Hoje, se você quiser fazer um negócio digital, o algoritmo vai te mandar para essas pessoas.

E, nesse campo, 90% dos influencers estão de alguma maneira alinhados à extrema direita. A gente fala isso com muita precisão, de um acompanhamento de mais de dois anos por diversos critérios quantitativos e qualitativos, acompanhando o movimento político desses influencers.

É um grupo político que tem uma visão de que o crescimento é puramente individual. Isso já é político por si só, mas no Brasil esse grupo foi se alinhando também à extrema direita.

E eles estão surfando sozinhos nessa explosão de aspirações da sociedade brasileira. Colocam uma ideia de que, para você crescer, é só você sozinho. Então, você tem que romper com a sua família, tem que mudar o teu mindset, tem que realmente se transformar numa outra pessoa e que o seu esforço individual é a única coisa que importa.

Claro, quando a gente fala em aspiração e empreendedorismo individual, pode ter uma tendência para ir para valores mais individuais e neoliberais.

Mas isso não é definitivo. O que torna isso definitivo é que hoje quem captura esse desejo por conforto, por autonomia e por liberdade na sociedade brasileira é essa rede muito específica. E isso é um fenômeno brasileiro.

Mas, com isso, eu não quero dizer toda essa população está sendo manipulada por esses influencers. Isso não é verdade. A gente tem um encontro de expectativas...

BBC News Brasil - A senhora também faz pesquisas na Índia e nas Filipinas. São países que também tiraram muita gente da pobreza e, com isso, vem também a aspiração. Lá acontece de forma diferente ou também há a captura por esse fenômeno de influenciadores de direita?

Pinheiro-Machado - Isso é um fenômeno muito brasileiro. A gente tem, por exemplo, a Índia, um país que tirou milhões e milhões de pessoas da pobreza e que também foca muito numa política de Estado de crescimento pelo empreendedorismo e por caminhos muito individuais.

As Filipinas também têm um dos maiores mercados de influencers do mundo.

Só que [aqui] se criou um campo chamado "marketing digital" ou "da prosperidade" online, que é um campo muito específico que une a figura do coach e do influencer.

A gente tem um processo que é: esse mercado do marketing digital é configurado como uma pirâmide. Eu chamo isso de uma "pirâmide aspiracional".

Você começa então vendendo um produto como unhas de gel. Sou manicure e eu ponho ali no Instagram o meu produto, que é meu serviço de manicure. Aí eu começo a comprar cursos para saber como ofereço isso, como me posiciono online, estratégias de funil, de lançamento...

Com isso, eu começo a entrar num processo de 'desenvolver o meu mindset', de que o problema não é só mais a técnica digital, mas a transformação do meu eu para atrair a riqueza.

Com isso, daqui a um pouco eu já não quero mais melhorar meu negócio de manicure. Eu entendo que, daqui a pouco, eu vou ser mentora de manicures e vou começar a vender o produto digital, que é quase ilimitado. E, daqui a um pouco, viro mentora das mentoras, não mais de manicure.

Então, a gente tem esse caminho. Eu começo tentando tirar uma renda extra digital, e começo a aspirar a ser mentor no esquema piramidal mesmo.

Só que o que a gente consegue quantificar é que esse crescimento, com a nossa base de dois milhões de aspirantes a empreendedores digitais, é praticamente nulo.

Camelô vende calças no chão ennquando pessoas em fila esperam por transporte público
Legenda da foto, Pleno emprego no Brasil não é suficiente para atender aos anseios da população, explica Pinheiro-Machado

BBC News Brasil - E esse não crescimento gera frustração, imagino... Essa frustração acaba se refletindo na política?

Pinheiro-Machado - A frustração sempre vai ter um custo político. A gente está falando de milhões de pessoas que ao longo de gerações tiveram essa capacidade de aspirar ampliada e que hoje encontram no digital uma promessa fácil, rápida, que parece solucionar todos os problemas da vida: tempo, dinheiro e respeito.

E aí elas não conseguem. E o que acontece? Tem dois caminhos que poderiam acontecer.

Um caminho é: "eu não acredito mais nesse mundo. Estou investindo há um ano e isso aqui é uma furada. Isso aqui é picaretagem. Isso aqui não funciona para mim".

O outro caminho é dizer: "eu não investi o suficiente no meu mindset. A culpa é minha. Eu tenho que me esforçar mais".

Ao mesmo tempo em que poderia ser lógico de que a frustração dessas pessoas levaria a um desencantamento com esse mundo do marketing digital, até o momento o que a gente pode dizer a partir das pesquisas qualitativas, conversando com as pessoas, é que elas culpam a si próprias pelo fracasso.

Isso é uma radicalização de uma política hiperindividualista em que o único responsável pelo fracasso e pelo sucesso sou eu mesmo.

Eu despolitizo esse processo e dobro a aposta no investimento em pagar mais um coach, em tentar de novo, em continuar mais uma noite sem dormir.

São pessoas que estão ali alimentando sonhos, se frustrando e, com isso, percebendo o Estado como usurpador, que só chega para extorquir ou que o Estado só chega para taxar ou para sindicalizar, que ele sempre esteve ausente.

Há um grupo de candidatos que está pensando nessas pautas que a gente poderia chamar de "populismo econômico", que é a ideia de que você cresce a partir do seu trabalho árduo e o papel do Estado é não fazer nada.

A gente sabe que isso não é verdade no Brasil, mas o discurso que pega entre essas pessoas é de que você só precisa trabalhar duro, alinhar o seu mindset e com isso você vai crescer. E o papel do Estado é não é não atrapalhar.

O PT muitas vezes é visto como governo, como Estado e como algo que vai aparecer só para sugar e para roubar.

BBC News Brasil - Então, essa frustração causada também está por trás da dificuldade que o governo tem de falar com esse público tão imenso no Brasil hoje?

Pinheiro-Machado - É uma dificuldade muito grande em muitos sentidos.

Porque, por um lado, a gente tem um partido que historicamente falou para trabalhadores sindicalizados e formalizados.

Tem uma dificuldade de olhar para o empreendedorismo como algo que também pode ser uma alternativa para a questão da formalização e do emprego. E também de pensar nesse desejo de autonomia como algo legítimo e não necessariamente como algo anticoletivista.

Por outro lado, a gente vai ter um grupo que está tornando esse desejo de autonomia como algo muito vinculado a uma pauta libertária.

Só que a autonomia pode ser também uma pauta coletiva, um desejo legítimo num país marcado pelo legado da escravidão como o Brasil, em que trabalho sempre implicou em processos de humilhação, de exploração, servidão. Então, o desejo por autonomia pode também ser um desejo por emancipação.

Então, é por aí que o governo precisava olhar para isso, para o desejo de autonomia como algo que precisa ser compreendido e oferecer para essas pessoas mais proteção social.

Esse é um processo que eu vejo que o governo vem fazendo nos últimos anos, porque não é mais possível não olhar para esse fenômeno, que é um dos maiores fenômenos da sociedade brasileira hoje.

Mas uma das coisas mais importantes hoje para entender o Brasil e as eleições é que o trabalho plataformizado não se resume aos dois milhões de pessoas uberizadas que a gente tem no Brasil. A gente está falando de, no mínimo, uma dezena de milhão de pessoas.

A plataformização do trabalho transforma a política pela sua natureza tecnológica em princípio desvinculada do Estado; pelo processo de isolamento que ele causa no trabalho digital; por toda sua forma alienante no sentido do trabalho; e por todo o discurso que ele traz embutido sobre você ser o único responsável pelo seu sucesso: você é um empreendedor, e não mais um trabalhador.

Protesto de entregadores de app na avenida paulista . Homens e motos e com capacetes levantam as mãos. Um deles tem megafone na boca
Legenda da foto, Trabalhadores plataformizados não são apenas os entregadores ou motoristas e app, mas todos com trabalho ligado às redes sociais, diz Pinheiro-Machado

BBC News Brasil - Quando a gente fala em plataformização do trabalho, a gente pensa justamente muito no Uber, no entregador de aplicativo. Mas hoje um médico precisa do Instagram para atrair pacientes, jornalistas estão se virando para responder ao algoritmo. É nesse sentido que a senhora fala que há muito mais pessoas plataformizadas?

Pinheiro-Machado - Com certeza. A Organização Mundial do Trabalho (OIT) entendeu a plataformização por muito tempo como serviços por aplicativos. E isso fez com que a gente tivesse uma visão muito reduzida do que é a plataformização.

Mas, hoje, tanto a própria OIT quanto os acadêmicos, incluindo o nosso laboratório, estão tentando mostrar o fenômeno da plataformização como muito maior. É um fenômeno que envolve e deve incluir o trabalho por rede social. Ele é um trabalho que é igualmente plataformizado.

Quando a gente inclui a rede social como plataforma de trabalho a gente vai ver que o processo de plataformização é um fenômeno que abarca praticamente todo o mercado de trabalho.

Hoje, você não consegue mais ser um psicólogo ou ter pequeno negócio sem ter um perfil no Instagram. Até consegue, claro, com exceções de negócios consolidados, com propaganda boca a boca.

A gente tem muitas entrevistas relatando o quanto que isso causa sofrimento. A pressão de que, além de trabalhar doze horas, agora eu tenho que investir na minha rede social.

Isso é um processo que traz uma pressão psicológica muito grande e também um senso de inevitabilidade. "Eu não vou ser alguém no mercado de trabalho se eu não vender o meu produto".

E aí a gente entra numa guerra de milhões de pequenos influencers. É uma luta de crescer numa rede que você não vai crescer, porque o Instagram e o TikTok estão organizados em torno de uma estrutura piramidal.

Claro que vai ter um que vai crescer. E como a gente tem uma sensação de que esse influencer está muito próximo da gente, porque ele é muito parecido com a gente, fala a mesma linguagem, a gente acha que vai chegar lá, basta trabalhar duro.

Mas estatisticamente não chega.

Isso gera um ciclo que não é apenas de frustração, é de sofrimento, é de exaustão, é de isolamento, é decepção.

BBC News Brasil - Se a grande maioria está na base da pirâmide do marketing digital e não vai crescer, porque o sistema está desenhado assim, como essa frustração vai se refletir na vida cotidiana e nas relações pessoais?

Pinheiro-Machado - A gente tem hoje uma ideia de que muito das nossas aspirações são sempre moldadas com o que a gente vê na rede social, o que é verdade.

Mas tem outra dimensão que eu gosto de chamar atenção, muito concreta na vida cotidiana.

Eu sempre tento pensar como esse mundo do ódio e da raiva não é só moldado numa desinformação abstrata ou num sonho abstrato de crescimento ou num inimigo abstrato forjado nas redes sociais.

A raiva é algo muito concreto. O trabalho de pesquisa mais granular, mais no chão de fábrica, vai nos mostrar que as pessoas vão construindo uma série de ressentimentos muito fortes em torno da sua própria comunidade, da sua própria vida.

Isso porque esse sujeito se vê como empreendendo, tentando. Ele paga mentoria, para crescer, tem todo o pacote da aspiração, trabalha 12 horas por dia e não se vê crescendo.

Em vez disso se transformar, por exemplo, numa frustração contra o próprio campo do trabalho plataformizado, o que vai acontecer é justamente o oposto.

Essa pessoa vai culpar geralmente a parte mais fraca, que faz parte do universo que forma a extrema direita populista hoje.

A culpa é do imigrante, é da pessoa que recebe o Bolsa Família...

Quando a gente está fazendo pesquisa, a gente vai ver que um dos maiores ressentimentos ainda é o Bolsa Família. A ideia de que eu trabalho duro, 15 horas por dia, mas a minha prima preguiçosa ganha tudo do Bolsa Família, do governo.

Eu percebo o Estado como muito ausente para mim, não me dá nada, mas em tese eu acredito que ele dá tudo para a pessoa que recebe todos os benefícios e não faz nada, está acomodada.

A gente sabe que isso não é verdade. Todas as estatísticas aí de décadas do Bolsa Família mostram justamente ao contrário.

Mas há aí um ressentimento estrutural que é baseado nas histórias concretas de vida.

Então, ao invés de a gente ter um senso coletivo e entender que a política de redistribuição é uma política muito importante, em pensar no coletivo de que pessoas mais pobres precisam de benefícios, eu entendo que eu sou melhor que aquela pessoa.

E assim eu começo a me identificar com uma política de extrema direita, que é nós contra eles, porque a definição de extrema direita, em grande medida, é uma política de divisão, de (achar) que alguns grupos são superiores que outros.

BBC News Brasil - Esse sentimento está um pouco na raiz da explicação sobre a sensação negativa da população com a economia, mesmo que os índices mostrem um cenário positivo?

Pinheiro-Machado - Eu acho que tem dois sentimentos que explicam isso. É um erro muito grande de todo o campo de estudos da extrema direita quando só foca no ressentimento.

Eu sempre digo que o ressentimento é 50% da história, e isso é muito.

Mas a gente também tem a outra metade da história que é o sonho de crescer.

Eu diria que as emoções em jogo nessas eleições são uma composição de raiva, ressentimento e frustração, mas de emoções positivas também.

A gente tem também o desejo de crescer, o desejo de empreender, o sonho positivo. E aí a gente tem uma política do governo que não consegue mais responder à raiva da população, mas também não consegue mais responder aos novos sonhos da população.

Esses sonhos estão sendo capturados apenas por uma linguagem política.

A população brasileira aumentou sua capacidade de aspirar, comprar coisas, sonhar, em grande medida, pelos governos do PT.

Mas o que se faz com isso? Não pode simplesmente abrir a janela da aspiração e fechar a janela. É preciso oferecer recursos para continuar as aspirações e não frustrá-las. E também dar caminhos para que as pessoas continuem sonhando e conquistando, porque um dos principais indicadores hoje de desenvolvimento econômico e social é o quanto as pessoas conseguem conquistar as suas aspirações.

Então temos o cenário em que temos indicadores de emprego pleno, indicadores econômicos mais positivos, mas a economia não funciona assim.

A economia percebida pelas pessoas comuns não funciona dessa maneira. É a percepção da economia. É preciso entender como é que a pessoa entende a economia na vida cotidiana. E, na vida cotidiana, a gente ampliou nossa capacidade de aspirar, minha capacidade de comparação.

Eu quero ter mais. Eu não vou olhar para trás e pensar que a minha vida está melhor do que dez anos atrás, eu estou olhando para frente.

As políticas precisam continuar respondendo a essa crescente aspiração por mais.

A gente também tem um grande número de endividamento na população brasileira, talvez uma das principais fontes de raiva e ressentimento, porque não existe nada pior do que estar endividado, não apenas pela perda da capacidade de poder de compra, mas pela questão de honra individual.

O meu ponto é de que a percepção da economia hoje está mais em jogo do que os próprios indicadores econômicos.

Tudo bem, a gente está numa situação de pleno emprego, mas a gente ampliou capacidade de sonhar da população brasileira. Aquele emprego de um salário mínimo, duas horas por dia no ônibus para ir e para voltar e ainda ser assaltado ou correr o risco de ser assaltado no ônibus, não é um emprego que cabe mais nos sonhos da população brasileira.

Então, mesmo que a gente esteja falando de uma população CLT, a gente está falando de uma população que está olhando para fora da CLT também, que chega em casa e vai aprender no digital e vai tentar uma renda extra digital.

A gente não pode falar só em produção de pleno emprego, a gente tem que entender que tipo de emprego está sendo formado e são empregos historicamente ruins, marcados por uma lógica de exploração e servidão que pagam mal e não trazem gratificação individual.

A aspiração é por respeito, por conforto e dignidade.

Uma mulher e um homem sentados num vagão de metro olham para a tela do celular

BBC News Brasil - Se essa lógica super individualista está tão entranhada, é possível voltar com um discurso de bem estar coletivo e social? A senhora vê um caminho?

Pinheiro-Machado - Eu diria que essa pergunta, de como a gente trabalha politicamente uma população brasileira que deposita tudo no sonho individual, é a maior pergunta que a gente tem hoje no Brasil.

Essa não é uma pergunta do jornalismo, dos acadêmicos. Essa é uma pergunta que está presente no governo brasileiro. A grande questão é, como que a gente transforma o sonho de visibilidade por algo coletivo e democrático?

Tem duas respostas para isso.

Hoje, a resposta realista é de que a situação é extremamente difícil, no sentido de que o sonho de prosperidade está completamente capturado pela visibilidade individual.

Isso é muito poderoso, porque estamos falando de uma sociedade que excluiu, humilhou, torturou os mais pobres historicamente.

Então, o desejo de 'não ser mais um pobre invisível, sou alguém', é muito fácil e automático de se transformar numa aspiração individual.

Isso automaticamente leva para um caminho muito individualista, principalmente nos meus sonhos.

Porém, o mundo não é feito só de sonhos e o mundo é feito de resultados concretos. E essa é a minha outra resposta.

É por isso que eu sempre disse: vamos sair das redes sociais e vamos olhar a vida das pessoas comuns.

O brasileiro médio, quando tem um emprego bom, em que ele é respeitado, tem 13º, férias, é chamado pelo nome, ele fica nesse emprego.

As pessoas estão buscando algo muito básico, que não é só uma dignidade, é reconhecimento individual no sentido de cidadania mesmo. Ela quer ser vista, ser chamada pelo nome.

No âmbito das relações concretas, ao mesmo tempo que a gente tem um mundo dissonante de sonhos, o que as pessoas estão buscando nesse sonho é algo muito básico: ter um bom salário, folga e ser chamado pelo nome, que é uma metáfora para 'ser visto'.

A gente tem números que mostram que não basta gerar pleno emprego, tem que gerar bons plenos empregos .

Com isso, as pessoas aceitam a vida que tem, porque essa é uma vida real de dignidade e de respeito.

Não tem outra solução para combater esse mundo que capturou os sonhos numa lógica hiperindividualista, muitas vezes baseadas em devaneios de enriquecimento individual de todo mundo, do que a promoção de políticas públicas robustas de proteção social e produção de bons plenos empregos.

BBC News Brasil - E essa dignidade que as pessoas buscam está refletida também na forma como elas se referem a si próprias nesse mundo digital, quando dizem que são CEO de uma lojinha...

Pinheiro-Machado - A gente percebe que, muitas vezes, parte da esquerda mais intelectualizada ou de grupos de camadas médias olham sempre com deboche para esses grupos.

Até se cunhou a expressão "CEO de MEI", que é sempre para ridicularizar a pessoa que se coloca como MEI ou autoempreendedor, dizendo é um pobre de direita, é um CEO de MEI.

A minha perspectiva é completamente outra. É no sentido de olhar para essas pessoas e entender por que é que esse trabalhador quer se colocar como empreendedor ou quer se colocar como CEO.

A gente fez um levantamento na nossa base de dados de aspirantes a empreendedores digitais, que são muitas vezes mulheres empreendedoras, pessoas que trabalham com artesanato, que vendem quitutes, que sonham em empreender, com 1 mil seguidores.

Essa base se define no Instagram como CEO. É uma das palavras que mais aparece na definição. Também como empresárias e empreendedoras.

Muitas vezes é um padeiro, é uma pessoa que vende doces, que tem uma pequena loja ou alguém que sonha em ter um negócio.

E aí tem duas interpretações para isso. Uma é dizer que é o mundo do Elon Musk, o mundo em que todo mundo quer ser CEO, todo mundo quer ser rico, todo mundo quer um título de chefe e de patrão para mandar.

Isso é um pouco verdade também.

Mas quando a gente vai lá na entrevista... Eu perguntei para uma ex-camelô, hoje proprietária de um pequeno negócio, 'por que você se chama de CEO'?

E ela falou: 'Porque é chique'. Ela dizia assim: 'Quando eu era camelô, corria da polícia e pessoas sempre me viam nesse universo de pessoas vagabundas, preguiçosas, marginais. Agora, na rede social, eu posso me chamar como eu quiser. Eu posso dar o meu próprio título, não o que a sociedade, o estigma da sociedade deu para vendedores ambulantes'.

Eu acho isso muito poderoso.

A minha proposta não é ridicularizar esse processo, é o oposto .

É entender que essas pessoas estão buscando um título que é o da moda, que traz dignidade, que se sentem chiques. Em última instância, é uma busca por dignidade, visibilidade.

Isso é algo fantástico, na verdade, porque essa pessoa não consegue talvez mudar sua situação socioeconômica, mas consegue mudar como é vista.

As pessoas buscam rótulo para se sentir mais dignas, mais respeitadas e poderem atribuir a si mesmo um rótulo e não deixar que a sociedade racista e classista faça essa atribuição.

Rosana em garupa de moto sorri pra foto
Legenda da foto, Trabalho de campo de Pinheiro-Machado inclui países como Índia e Filipinas

BBC News Brasil - Na sexta-feira (25/09), Lula proibiu as bets de atuarem no Brasil e, com isso, veio uma reação de uma rede grande de influenciadores que ganharam muito dinheiro com isso e agora estão falando mal do governo. As pesquisas mostram que a maioria da população é contra bets, mas a senhora avalia que essa reação de influencers pode ter um impacto negativo ao governo e marca mais um distanciamento entre o governo e esse mundo digital?

Pinheiro-Machado - Evidentemente, os influencers têm um papel muito importante para inspirar os aspirantes a empreendedores digitais, esse batalhão de pessoas que está tentando ganhar a vida de forma plataformizada.

Os influencers colocam modelos a serem copiados e fazem com que as pessoas, expandam essa capacidade de projetar sua vida.

Mas uma das coisas que eu coloco muito no meu trabalho é a importância de a gente não esquecer de olhar para o básico, para a materialidade da vida cotidiana, onde as coisas acontecem no dia a dia.

É nesse lugar onde os ressentimentos, a raiva, o sentimento de humilhação, de frustração vão ocorrer e vão também ter um impacto político muito grande.

Eu acho que as bets são um bom exemplo. Elas são profundamente rejeitadas pela população brasileira, mas principalmente pelas mulheres.

Eu coordenei uma pesquisa muito grande de caráter nacional, quantitativa, feita só com mulheres empreendedoras populares, que mostra que 80% repudiam e 60% sentem, de alguma maneira, sua vida impactada ou conhecem alguém que tem a sua vida impactada pelas bets.

Na parte qualitativa, foi possível perceber o quanto que essas mulheres não apenas rejeitam. Elas têm pavor e pânico do que as bets causaram em seus maridos , filhos e vizinhos.

Quando a gente traz a discussão para esse nível de impacto na vida cotidiana, a minha avaliação é que os influencers vão estar falando para quem é apostador, para quem já é convertido politicamente.

Em termos políticos, o governo ganha com a proibição das bets, porque está pegando em feridas muito abertas, principalmente das mulheres empreendedoras, que muitas vezes levam as famílias inteiras.

Há uma capacidade de ter um ganho positivo, porque quem é apostador e quem está totalmente já dominado pelo discurso dos influencer, é um grupo que já está fechado e determinado.

Mas é possível que Lula agora tenha conseguido um certo alívio e falar diretamente para a dor dessas milhões de mulheres brasileiras que têm visto suas famílias serem destruídas por causa das apostas.