Desaparecidos no Nepal e Tibete chegam a quase 2 mil: as perguntas para entender a tragédia

Mulher caminha descalça em lama, com ruínas de edifícios visíveis ao fundo

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Avalanche deixou mais de 547 pessoas mortas
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Deslizamentos de terra e enchentes repentinas de grandes proporções na fronteira entre o Nepal e o Tibete causaram danos generalizados, deixando ao menos 579 mortos e quase 2 mil desaparecidos.

Imagens do desastre ocorrido na quarta-feira (26/8) mostram uma onda de lama e pedras arrastando prédios, estradas e veículos enquanto pessoas fugiam dos destroços que avançavam rapidamente na região de Nuwakot.

Um vídeo mostra um fluxo massivo de água e lama descendo por um desfiladeiro ao longo do rio Trishuli e atingindo o posto fronteiriço de Rasuvagadhi, um complexo de vários andares.

Grandes inundações também foram relatadas nos rios Bhote Koshi e Narayani.

O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas no Nepal alertou que inundações secundárias podem ocorrer nos próximos dias devido aos detritos que estão sendo levados pelos rios.

Esses temores fizeram com que os resgates fossem pausados temporariamente, mas os esforços já foram retomados na manhã desta sexta-feira (28/08).

Enquanto isso, autoridades e cientistas continuam estudando o que ocorreu e se preparando para eventuais desdobramentos daqui pra frente.

Resumimos aqui o que se sabe até o momento.

1. O que causou a avalanche?

O ministro das Relações Exteriores do Nepal afirmou inicialmente que um terremoto havia ocorrido na fronteira entre seu país e o Tibete pouco antes do deslizamento de terra, o que levou à especulação de que a atividade sísmica poderia ter desencadeado a tragédia.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) também chegou a relatar que o evento de quarta-feira poderia ter sido um terremoto de magnitude 4,4.

No entanto, a agência americana confirmou posteriormente que o incidente "foi, na verdade, um colapso glacial e fluxo de detritos" que causaram "impactos catastróficos".

Sabe-se que as mudanças climáticas estão acelerando o derretimento glacial na região do Hindu Kush-Himalaia. Enquanto os esforços de resgate continuam, os cientistas estão tentando reconstruir com precisão a sequência de eventos.

Simon Cook, glaciologista e professor de Energia, Meio Ambiente e Segurança na Universidade de Dundee, afirmou que "as mudanças climáticas podem ter um impacto".

"O permafrost mantém parcialmente unidas algumas encostas de montanhas; esse permafrost está aquecendo, descongelando e se degradando, então mais deslizamentos de terra ocorrerão", explicou Cook à BBC.

Uma possibilidade é que a água da chuva ou do degelo tenha desestabilizado o terreno ou o próprio gelo, desencadeando uma reação em cadeia.

Os cientistas analisarão imagens de satélite para determinar exatamente onde ocorreu o deslizamento de terra, se algum lago glacial secou repentinamente e onde o rio pode ter sido bloqueado.

Eles também estudarão dados sobre as chuvas recentes.

Mapa mostra região da fronteira entre Nepal e Tibete

2. É possível prevenir desastres como esse?

Especialistas apontam que desastres como deslizamentos de terra, avalanches e colapsos glaciais não podem ser completamente evitados, mas seus impactos podem ser reduzidos.

Cada vez mais, sistemas de alerta precoce estão sendo instalados em vales vulneráveis ​​e ao redor de lagos glaciais. Esses sistemas podem monitorar mudanças nas condições ambientais e fornecer tempo valioso para evacuações.

Pesquisadores também afirmam que uma melhor cooperação transfronteiriça é essencial, já que muitos desses desastres se originam em áreas remotas do Tibete antes de afetar o Nepal.

"Se tivesse começado no Nepal, poderíamos ter visto daqui. Mas em incidentes como este, o sistema de compartilhamento de informações entre os países precisa ser fortalecido", explicou Basanta Raj Adhikari, especialista em desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal.

A longo prazo, cientistas dizem que reduzir a exposição ao risco pode ser a defesa mais eficaz.

"Comunidades localizadas nas margens de rios também podem ser realocadas, identificando-se áreas de alto risco", observou o especialista.

Rio repleto de lama corre ao lado de uma série de construções cobertas de lama. A foto foi tirada de cima.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A avalanche soterrou dezenas de casas e deixou milhares de pessoas desabrigadas

3. Qual é o número de vítimas?

Os números de mortos e desaparecidos seguem em constante atualização.

Até esta sexta, as autoridades nepalesas registram 579 mortos e mais de 1.473 feridos. Quase 2 mil pessoas ainda estão desaparecidas, incluindo 517 estrangeiros.

Pelo menos 121 estrangeiros haviam sido resgatados até a manhã de sexta-feira.

No Tibete, cinco pessoas foram mortas e 558 continuam desaparecidas.

Não está claro se algumas das pessoas desaparecidas contabilizadas pelo Nepal e pela China foram registradas duas vezes.

A passagem de Gyirong, na fronteira, é a principal rota para turistas e mercadorias entre a China e o Nepal.

O distrito de Rasuwa, no Nepal, que foi gravemente afetado pelas inundações, está "totalmente isolado fisicamente", segundo o ministro da Informação do país, Bikram Timilsina.

"Não conseguimos chegar lá, e levará tempo para avaliarmos a extensão dos danos", disse ele à BBC. A área fica localizada ao norte da capital, Katmandu.

"Só conseguimos resgatar pessoas por helicóptero", acrescentou.

4. Por que é difícil saber a real dimensão do impacto no Tibete?

O Tibete é uma das regiões mais rigorosamente controladas da China.

A província, anexada pela China na década de 1950, é uma das regiões mais rigorosamente controladas do país.

A região reivindica há muito tempo maior autonomia e é fortemente monitorada, pois Pequim teme quaisquer sinais de instabilidade, como protestos.

É por isso que as ordens relacionadas à tragédia partiram pessoalmente do líder máximo Xi Jinping, e o primeiro-ministro Li Qiang visitou o local na quinta-feira. É raro que ele faça uma visita logo após um grande desastre.

Para entrar no Tibete, é necessário um visto especial, e é difícil — se não impossível — para a imprensa estrangeira obter acesso. Tentar contatar pessoas no local é igualmente desafiador.

Isso torna muito difícil saber o que está acontecendo, dependendo-se fortemente de relatos da imprensa estatal chinesa.

Peregrinos que viajam do Nepal, passando pelo Tibete, até a montanha sagrada de Kailash precisam de quatro autorizações distintas, incluindo uma permissão especial das forças armadas chinesas.

5. Como os governos estão respondendo ao desastre?

Casas cobertas de lama ao lado de um rio e, atrás, casas coloridas que não sofreram os efeitos da avalanche

Crédito, Getty Images

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, declarou que o país todo está "chocado e profundamente consternado", acrescentando que as autoridades coordenariam a resposta com a China.

O presidente chinês, Xi Jinping, pediu uma busca "completa" e prometeu fortalecer os sistemas de monitoramento e alerta precoce para evitar impactos secundários.

Netsa sexta, Xi presidiu uma reunião de emergência com autoridades para coordenar os esforços de resgate.

Na Índia, o primeiro-ministro Narendra Modi declarou que seu governo estava "preparado para fornecer ao Nepal toda a assistência humanitária possível".

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse estar "entristecido pelas graves inundações" e acrescentou que equipes da ONU e parceiros estão mobilizando suprimentos e funcionários no Nepal para apoiar o governo local.

Os EUA prometeram US$ 500 mil em ajuda, verba a ser destinada a abrigos de emergência, água potável, saneamento e outros itens de socorro para as comunidades afetadas.

*Com informações de Pawan Raj Paudel, Olivia Ireland e Henry Moore