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As 4 regras de ouro do Japão para tornar suas cidades mais habitáveis
- Author, Lindsey Galloway
- Role, BBC Travel*
- Published
- Tempo de leitura: 8 min
O que faz com que uma cidade seja realmente fácil de se habitar?
A resposta não está necessariamente em arranha-céus envidraçados nem em atrações mundialmente famosas, mas sim na possibilidade de se ir ao trabalho sem precisar de carro, de se fazer compras a pé, transitar por uma estação de trem em uma cadeira de rodas ou empurrar um carrinho de bebê com segurança pela calçada.
As cidades do Japão são especialmente boas nesses atributos.
No Índice Global de Habitabilidade de 2026 da Economist Intelligence Unit, Osaka ocupou o sétimo lugar e Tóquio subiu três posições, chegando ao décimo posto, o que faz do Japão o único país asiático com duas cidades entre as dez primeiras.
Essa ascensão reflete as pontuações máximas obtidas nos critérios de estabilidade, assistência médica e educação, além de boa infraestrutura.
Seus moradores afirmam, no entanto, que o verdadeiro diferencial reside nas decisões de design, tomadas com o objetivo de fazer com que a vida cotidiana flua com o mínimo possível de contratempos.
"O Japão foi construído para funcionar para todos", diz Josh Grisdale, usuário de cadeira de rodas motorizada, diretor da plataforma Accessible Japan, que compartilha informações sobre acessibilidade no país, e morador de Tóquio há 18 anos.
"As mesmas rampas, elevadores e espaços que utilizo como cadeirante também ajudam um pai ou mãe com carrinho de bebê, um idoso ou alguém que chega do aeroporto carregando uma mala", ressalta.
Para o arquiteto Francis Aguillard, que estudou o design urbano japonês, os detalhes mais simples do dia a dia costumam ser os que geram maior impacto. "A habitabilidade muitas vezes se resume a reduzir os entraves da vida cotidiana", afirma.
"Uma pessoa consegue chegar ao trabalho, à escola, ao supermercado, a um parque, ao médico e visitar amigos sem ter que organizar todo o seu dia em torno do carro?", continua.
Para muitos japoneses, a resposta é sim. Conversamos com eles e com especialistas em planejamento urbano para entender como o país projeta cidades que funcionam bem e quais são os aspectos que as tornam tão fáceis de se viver.
1. Construir cidades em torno da vida cotidiana
Grande parte da vida cotidiana no Japão acontece nos "shotengai" — ou seja, ruas comerciais cobertas repletas de estabelecimentos independentes, cujos proprietários muitas vezes moram acima de suas próprias lojas.
"Uma quitanda, uma cafeteria tradicional, uma clínica, uma loja de produtos a 100 ienes (R$ 3,2) e opções para jantar podem ser encontradas ao longo de algumas poucas quadras planas e cobertas", diz Grisdale.
Comprar mantimentos era uma tarefa que o americano Patrick Lydon detestava quando vivia nos Estados Unidos.
Isso mudou depois que ele e a esposa se mudaram para um bairro moderno de Osaka, ainda que a casa menor e a geladeira minúscula os tenham obrigado a fazer compras com mais frequência.
Agora, em vez do carro, eles vão de bicicleta ao mercado.
"De certa forma, a experiência é realmente agradável", diz Lydon, autor de The Possible City ("A Cidade Possível", em tradução literal), uma série de ensaios ilustrados que examina a vida no Japão e na Coreia.
"Ir ao supermercado pode se transformar em uma experiência social cotidiana que conecta você ao bairro. Todos, desde crianças até idosos, percorrem essa rua a pé todos os dias", explica.
É um conceito difícil de replicar em outros lugares, mas Lydon o compara ao que tornava tão especial a antiga "main street" dos Estados Unidos (via local que costumava concentrar parte do comércio em algumas áreas).
Projetar em uma escala centrada nas pessoas traz resultados.
"O cheiro de croquetes fritos que se espalha pelas ruas, os pequenos comércios administrados pelos proprietários dos imóveis, o fácil acesso ao transporte público, a sensação de segurança e comunidade para pessoas de todas as idades... é difícil exagerar o quanto tudo isso funciona bem", afirma.
As cidades japonesas também são projetadas para que os veículos se adaptem às ruas, e não o contrário, com vans de entrega compactas e pequenos caminhões circulando por vias construídas em escala humana.
"As ruas das cidades no Japão costumam funcionar como espaços compartilhados onde pedestres, bicicletas e veículos podem conviver", afirma Aguillard. "Longe de gerar caos, isso cria uma bela dança de atividades."
2. Projetar o transporte para todos
Os sistemas de transporte do Japão são reconhecidos por sua confiabilidade, segurança e limpeza.
"O incrível sistema de transporte público pode levar você a qualquer lugar", diz Keiko Ota, gerente regional de operações da G Adventures que vive em Tóquio há mais de uma década.
"Não tenho carteira de motorista, mas, mesmo assim, sinto total liberdade para ir aonde quiser", acrescenta.
Grisdale gosta do fato de que o transporte público é acessível no Japão e de não precisar planejar seus deslocamentos com antecedência, como precisa fazer em outros países.
"Vindo do Canadá, ainda acho estranho poder ir a quase qualquer estação [no Japão] e chegar ao meu destino de trem ou ônibus, no horário sem hesitar", afirma.
"Os elevadores raramente estão fora de serviço e, quando um não funciona, existe um plano B: a equipe utiliza um dispositivo portátil para subir escadas, em vez de me dizer que não é possível fazer o trajeto."
Sua experiência reflete uma transformação nacional de duas décadas, impulsionada pela Lei de Acessibilidade sem Barreiras aprovada no Japão em 2006.
Em 2020, mais de nove em cada dez estações com grande fluxo de passageiros haviam eliminado a necessidade de subir escadas, graças à instalação de milhares de elevadores em todo o país.
Em Tóquio, Grisdale considera que a cidade continua receptiva a sugestões e comentários de seus habitantes. Quando os vasos de flores de seu parque local estavam muito próximos, impedindo a passagem de sua cadeira de rodas, ela relatou o problema ao departamento de parques.
Em poucos dias, foram colocados adesivos para lembrar a equipe de deixar espaço suficiente para a passagem de usuários de cadeiras de rodas.
A abordagem japonesa em relação à acessibilidade influenciou cidades muito além de suas fronteiras. O piso tátil amarelo com relevo, utilizado por pessoas com deficiência visual em todo o mundo, foi inventado pelo engenheiro japonês Seiichi Miyake em 1967 para ajudar um amigo que estava perdendo a visão.
Em menos de uma década, seu uso tornou-se obrigatório nas estações ferroviárias do país. "O Japão deu isso ao mundo inteiro", diz Grisdale.
3. Preservar a essência do lugar
Apesar de seus famosos trens-bala e de seus centros urbanos agitados, o Japão também valoriza a paciência, a continuidade e o respeito pela tradição.
Quando Lydon registrou sua residência em Osaka, o funcionário do órgão distrital que o atendeu pegou um enorme livro de mapas, apagou o nome do ocupante anterior e escreveu o dele a lápis.
"Como alguém que cresceu trabalhando em empresas de tecnologia do Vale do Silício, isso me impressionou", diz ele.
"No Japão, muitas vezes os sistemas não são substituídos simplesmente porque existe uma tecnologia mais nova. Se algo continua funcionando de maneira confiável, há menos pressão para reinventá-lo", explica.
Essa paciência também se reflete na paisagem, onde árvores centenárias sobrevivem em bairros comuns e até mesmo em estações de trem, como a cânfora de 700 anos que cresce atravessando o telhado da estação de Kayashima, perto de Osaka.
"Viver no Japão me fez notar com que frequência as árvores antigas são tratadas como algo que vale a pena ser preservado e adaptado, em vez de eliminado", conta Lydon.
"Seja pela tradição xintoísta ou simplesmente pelo carinho das pessoas, o resultado é marcante. Há uma diferença entre construir infraestrutura sobre um lugar e construí-la com um lugar", continua.
Mesmo nos distritos comerciais mais movimentados, a vida cotidiana está integrada à trama da cidade.
"Você vê pessoas correndo para chegar a reuniões e, ao virar a esquina, encontra um pequeno santuário que está ali há gerações, ou um restaurante minúsculo onde o proprietário parece conhecer pelo nome todos os clientes habituais", diz Masato Kominami, gerente geral do 1 Hotel Tokyo, que percorre o distrito de Akasaka na maioria dos dias.
"Em meio a uma jornada de trabalho muito agitada, você ouve o canto dos pássaros, nota como a luz muda entre as árvores ou percebe os aromas da estação."
4. Seguir regras de convivência em espaços compartilhados
A infraestrutura projetada em escala humana é apenas uma parte da história: as pessoas que vivem nas cidades japonesas também criam as condições para que elas prosperem.
"Tóquio é incrivelmente agitada, mas as pessoas pensam instintivamente em como suas ações afetam os outros", diz Kominami. "Não é algo de que se fale muito; simplesmente faz parte do dia a dia."
Grisdale depende dessa cooperação e, após quase duas décadas vivendo lá, considera-a tão importante quanto qualquer obra que um governo possa realizar. "As boas maneiras são tão importantes quanto a infraestrutura", afirma.
E explica: "As pessoas formam filas seguindo as marcações nas plataformas, mantêm o silêncio nos trens e cedem os assentos preferenciais e o espaço sem que se precise pedir. Em uma cidade desse porte, isso ajuda a tornar a vida cotidiana mais tranquila para todos".
Em Osaka, Lydon descobriu que ele mesmo mudou graças à maneira como o Japão funciona, com consciência e consideração pelo próximo.
"Seja formar fila para pegar o trem, falar baixo em público, não jogar lixo no chão, separar resíduos para reciclagem ou dizer "itadakimasu" ("recebo humildemente") antes de uma refeição, muitos hábitos cotidianos lembram você de que faz parte de algo maior do que si mesmo", conta.
"Talvez não seja uma fórmula mágica para resolver os males do mundo, mas, pessoalmente, isso me ajudou a me voltar mais para a gentileza, a beleza e a paz."
*Essa reportagem foi publicada na BBC Travel. Clique aqui para ler a versão original (em inglês).