Coronavírus: em meio a discussões sobre lockdown, pesquisa aponta que mais de 70% defendem isolamento social de todos

Avenida Paulista com pouco movimento
Legenda da foto, Pesquisa aponta que população defende medidas de isolamento, mas ainda assim SP tem tido dificuldade em manter a baixa circulação de pessoas
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Tempo de leitura: 4 min

Em meio a recordes no número de mortes diárias de covid-19 no Brasil e adoção de medidas mais rígidas de quarentena em diversas regiões, uma pesquisa recém-divulgada aponta que 72,4% das pessoas são favoráveis ou muito favoráveis a que toda a população fique em isolamento social.

Sobre o uso de máscaras, que a partir desta quinta-feira (07/05) passa a ser obrigatório em todo o Estado de São Paulo - desde o transporte público até dentro de estabelecimentos e locais públicos -, 78,7% dos entrevistados disseram concordar parcial ou totalmente com a frase: "me sinto mais seguro se todos estiverem usando máscaras".

A pesquisa, feita em 30 de abril por aplicativo de celular com 1,7 mil pessoas em todo o Brasil, é da startup Behup, que levanta dados para fazer análise de comportamentos. A amostragem, segundo a Behup, é representativa da população brasileira e tem margem de erro de três pontos percentuais.

O Brasil tem tido intensos debates sobre as medidas de isolamento social. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro defende a volta ao trabalho da população, alguns Estados e municípios adotam medidas mais restritivas na tentativa de conter o avanço do novo coronavírus.

Nesta quinta, Bolsonaro foi ao Supremo Tribunal Federal com um grupo de empresários e ministros para pressionar pelo fim das restrições à atividade econômica.

O Brasil registrou mais de 600 mortes diárias por covid-19 nos últimos dois dias. O boletim de quarta-feira do Ministério da Saúde apontou que já passa de 8,6 mil o total de mortes oficialmente confirmadas, e são mais de 127,4 mil casos da doença.

Em São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil, a prefeitura anunciou um "megarrodízio" a partir de 11 de maio para diminuir a circulação de veículos e, consequentemente, reduzir o número de pessoas circulando nas ruas.

Fiscalização de feira livre em Belém
Legenda da foto, Fiscalização de feira livre em Belém, que entrou em lockdown

No Rio de Janeiro, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que o Estado pode ficar sem leitos de UTI (unidades de terapia intensiva) já a partir de 13 de maio. Por conta disso, a fundação defende medidas de lockdown - um isolamento mais rígido e passível de punição para quem o descumpri-lo.

A adoção tardia dessas medidas, segundo a Fiocruz, "resultaria em uma catástrofe humana de proporções inimagináveis para um país com a dimensão do Brasil".

No Maranhão, a capital São Luís está em lockdown desde terça-feira; a medida passou a valer também em Belém e em outras nove cidades do Pará a partir desta quinta. No Ceará, o lockdown começará em Fortaleza nesta sexta.

No Amazonas, o Ministério Público entrou com uma ação na Justiça pedindo o isolamento mais rígido, uma vez que o sistema de saúde local já está em colapso.

Regras valem para os outros?

De volta à pesquisa de opinião da Behup, 74,7% dos entrevistados se disseram preocupados ou muito preocupados em contrair o novo coronavírus. E 14,9% se dizem favoráveis e 57,5% se dizem muito favoráveis a que todas as pessoas permaneçam em isolamento social (totalizando os 72,4% citados no início desta reportagem).

Apenas 5,5% se disseram nada favoráveis a medidas de isolamento.

O que explica, então, as baixas taxas de adesão às quarentenas adotadas pelos governos locais? Em São Paulo, por exemplo, a medição do governo estadual a partir de dados de celulares aponta que, nos dias 5 e 6 de maio, o índice de adesão ao isolamento foi de 47% da população - a taxa considerada ideal é de 70%.

Fiscalização de veículos em São Luís, no Maranhão, também em lockdown
Legenda da foto, Fiscalização de veículos em São Luís, no Maranhão, também em lockdown; em pesquisa, 74,7% dos entrevistados se disseram preocupados ou muito preocupados em contrair o novo coronavírus

Além das dificuldades de parte da população em promover o distanciamento social em locais inadequados e a necessidade de trabalhar para sobreviver, o pesquisador Danilo Cersocimo, diretor de assuntos públicos da Behup, vê também um "comportamento bem brasileiro".

"Minha interpretação dessa contradição é de que, primeiro, existe uma noção de que o isolamento social é importante, e sua defesa é o politicamente correto", diz ele à BBC News Brasil.

"Mas também existe um comportamento típico brasileiro de que 'as regras são para os outros' ou de 'não me considero em (comportamento de) risco'. Mostra a nossa dificuldade em cumprir regras sociais e em ter um comportamento (para o bem) coletivo."

Pensar no médio prazo

Na avaliação de Cersocimo, outros números da pesquisa sinalizam ainda uma possível dificuldade em manter as medidas de proteção no médio e no longo prazo.

Enquanto 84,4% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a ideia de que "usar máscara em público é um sinal de respeito para com os outros", apenas a metade também concorda parcial ou totalmente com a ideia de que "o governo deve obrigar as pessoas a usar máscaras em público mesmo quando a pandemia tiver passado".

"Isso me leva a crer que, se com o passar dos meses, houver a percepção de que a pandemia está controlada - e essa percepção pode variar entre as pessoas -, pode ser que haja um relaxamento (na defesa das medidas de proteção)", opina.

Línea

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