Transporte público: Estudo de Oxford mostra que obras da Copa e Olimpíada beneficiaram mais ricos que pobres

Linha 4 do Metrô, chegada à estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Legenda da foto, Construída como parte dos investimentos em mobilidade urbana no Rio, a linha 4 do metrô foi aberta ao público em setembro de 2016
    • Author, Fernanda Odilla
    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Em um prazo de uma hora, em quantos hospitais, escolas e postos de trabalho uma pessoa é capaz de chegar saindo de casa e usando transporte coletivo ou caminhando?

Com essa pergunta na cabeça, um estudo conduzido na Universidade de Oxford pelo pesquisador brasileiro Rafael Pereira mediu quem ganhou com as obras e investimentos bilionários feitos em transporte na cidade do Rio de Janeiro em termos de acesso e mobilidade.

Segundo a pesquisa, a promessa de melhorar radicalmente o transporte público da cidade do Rio de Janeiro depois da Copa e da Olimpíada não foi cumprida.

Apesar do estudo indicar que todos foram beneficiados de alguma forma com os investimentos bilionários – aproximadamente US$ 6 bilhões – feitos em mobilidade urbana, mas os benefícios para a população de baixa renda, em termos de acesso, foram menores quando comparados à parcela mais rica da capital fluminense.

"Apesar dos novos investimentos, as condições de transporte no Rio pioraram entre 2014 e 2017 devido a reorganização dos serviços de ônibus e a crise econômica que atingiu o Rio após 2016. Os mais prejudicados foram as pessoas de mais baixa renda, dos bairros periféricos, que já eram os que menos ganharam acessibilidade com as obras e os investimentos", atesta o pesquisador, que transformou o legado do transporte urbano após os grandes eventos no Rio em tema de tese de doutorado em Oxford, na Inglaterra.

"Se não tivesse havido crise, os investimentos poderiam ter aumentado o acesso da população a oportunidades, mas ainda assim os ganhos de acessibilidade seriam maiores para população de média e alta renda", completa, explicando que, em um curto prazo, a crise econômica anulou os efeitos positivos do legado dos megaeventos para o transporte.

Tempo de deslocamento

Foto do pesquisador Rafael Pereira com gráficos ao fundo
Legenda da foto, Rafael Pereira, pesquisador: 'Os mais pobres são os que menos ganharam e os que mais perderam'

As conclusões de Pereira não se limitam a análise de acesso aos locais onde houve eventos.

A pesquisa analisou toda a infraestrutura de transporte existente em 2014 e em 2017. Também cruzou dados como a localização de todas as escolas, hospitais e postos de trabalho do Rio com a malha viária, trajetos e horários de todas as linhas de ônibus da cidade, além da renda média da população de cada região.

"Queria saber quantas pessoas chegariam em determinado hospital, escola e vagas de trabalho em até uma hora e quem eram essas pessoas, em termos de renda", explica Pereira.

Ele aplicou a mesma tecnologia usada pelos mapas da Google (GTFS) para calcular o tempo de deslocamento de porta a porta a cada 20 minutos, no período entre as 7h e as 19h. O banco de dados era tão grande que foi preciso usar o servidor do Departamento de Geografia de Oxford, já que o computador pessoal do pesquisador não tinha capacidade para cruzar tantos dados ao mesmo tempo.

No caso do Rio, para mensurar o efeito que havia antes e comparar com o que houve depois dos eventos, Pereira usou um modelo matemático para isolar o impacto da crise econômica que, segundo ele, normalmente faz com que as empresas de ônibus demitam, reduzam frotas e reorganizem horários e linhas diante da queda do número de passageiros provocada pelo desemprego e recessão.

Diferença

O estudo mostra que em 2014 o nível de acesso a postos de trabalho com deslocamento de até uma hora era 84% maior para os 20% mais ricos quando comparado aos 20% mais pobres do Rio. Em 2017, essa diferença aumentou para 116%. Se não houvesse a crise, seria 92% maior para os com a renda mais alta.

Entre 2014 e 2017 o número de empregos e a quantidade de escolas públicas acessíveis para população em deslocamentos de até uma hora caíram cerca 4,5% e 6%, respectivamente. "Essa queda foi ainda maior para bairros de mais baixa renda", diz o pesquisador.

Por outro lado, o acesso a unidades de saúde já era razoavelmente bom antes dos jogos: cerca de 95% da população do Rio consegue chegar em até uma hora de transporte coletivo ou a pé a pelo menos um hospital de alta complexidade. Mas, se a análise levar em conta um deslocamento de 30 minutos, esse número cai para 73%.

Ao comparar o tempo de deslocamento em 2014 e em 2017, contudo, houve um aumento do tempo para acessar hospitais que variou entre 1,5% a 7,5%, a depender do grau de complexidade da unidade de saúde. Segundo o pesquisador, isso aconteceu por causa da reorganização das linhas.

"A conclusão é que o legado dos megaeventos (para o transporte) foi maior para as classes média e alta, aumentando a desigualdade de acesso a oportunidades", assinala o Rafael Pereira.

'Os mais pobres são os que menos ganharam e os que mais perderam'

Roberto Santos, no Rio de Janeiro
Legenda da foto, Morador de Santo Cristo, bairro da zona portuária na região central, Santos diz que o deslocamento ficou mais complicado e demorado

Roberto Santos, de 48 anos, sente todos os dias o os efeitos do que é indicado pelas estatísticas do estudo conduzido Oxford. Desde 2005 morando no bairro de Santo Cristo, na zona portuária no centro do Rio, Santos diz que o deslocamento ficou mais complicado e demorado, em especial no fim da noite e na madrugada.

Ele estuda à noite na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e conta que voltar tarde da universidade é sempre complicado. Antes, diz ele, com um único ônibus chegava em casa. Agora, precisa ir até a Central do Brasil - e, a depender do horário, volta a pé.

"De um modo geral os grandes eventos não trouxeram benefícios para quem mais precisa. O grande legado é um transporte ineficaz, mesmo pra quem mora na região mais central. Com a crise, então, piorou para quem, como eu, mora em Santo Cristo, ou na Gamboa e na Saúde e depende de transporte público. Concordo em gênero, número e grau com esse pesquisador. Os mais pobres são os que menos ganham e os que mais perderam, é exatamente o que está acontecendo", diz Santos, que também é pesquisador e atua como líder comunitário.

Santos diz que a mobilidade piorou desde que começaram as obras para recuperar a zona portuária, ainda em 2009, com remanejamento de linhas e rotas. Mas, para ele, as novas opções de transporte como o VLT (Veículo Leve sob Trilhos) no centro do Rio "sempre foi um meio de transporte mais pensado para os turistas que para os moradores locais".

Ele reclama ainda que a população nunca é consultada sobre as decisões de criar e mudar linhas e rotas de ônibus.

Rio de Janeiro - Viagem inaugural do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Carioca, no centro da cidade
Legenda da foto, Entre os principais projetos de mobilidade no Rio de Janeiro está o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT)

Solução para o problema

O pesquisador Rafael Pereira pondera, contudo, que o Rio tem uma grande chance de melhorar o deslocamento de quem mais precisa de transporte coletivo.

Além de alterar linhas e rotas já existentes para melhorar o acesso, por exemplo, dos com menor renda, a implantação das linhas do corredor BRT TransBrasil, uma conexão rápida para ônibus que deveria ter sido entregue para as Olimpíadas em 2016, pode impactar a acessibilidade da população a oportunidades de emprego para diferentes grupos de renda.

O plano operacional e o trajeto do BRT ainda não foram concluídos e há dúvidas se a implementação será parcial ou total por falta de recursos - as obras haviam sido iniciadas em 2015 e interrompidas em agosto do ano seguinte. Chegaram a ser retomadas em 2017 mas foram paralisadas novamente. Depois de cinco meses de interrupção recomeçaram em julho.

"A implementação completa do BRT poderia beneficiar cerca de 58% da população do município do Rio com um aumento média de 11% do número de empregos acessíveis . Poderia gerar ganhos de acesso a empregos ainda maiores para população de baixa renda - aproximadamente 23% - e contribuir para diminuir a desigualdade de acesso a oportunidades", avalia Pereira.

Obras de futura estação do BRT Transbrasil, na Avenida Brasil, altura de Manguinhos, no Rio de Janeiro.
Legenda da foto, Obras de futura estação do BRT Transbrasil, no Rio: O plano operacional e o trajeto do BRT ainda não foram concluídos

O outro lado

Procurada por meio da assessoria em 10 de dezembro, a Secretaria Municipal de Transporte do Rio não respondeu aos questionamentos da repórter nem comentou a pesquisa conduzida em Oxford até o fechamento dessa reportagem.

O Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), que mede indicadores das 26 capitais e de nove regiões metropolitanas, afirma que os resultados apresentados pela pesquisa conduzida em Oxford "são consistentes com análises mais simples" que o instituto faz de forma regular e nas quais foram identificadas que "houve ganhos maiores para a população de maior renda do que para a população de mais baixa renda".

O ITDP é uma organização sem fins lucrativos que promove projetos de transporte público e desenvolvimento sustentável a partir de ações conjuntas entre órgãos governamentais e sociedade civil.

Segundo informou o instituto, o Rio aumentou em 52% a extensão de corredores de transporte como resultado dos investimentos para a Olimpíada de 2016, mas o percentual de população próximo a essa rede cresceu apenas 5%.

O estudo de Rafael Pereira se limitou a cidade do Rio e, por isso, não incluiu, por exemplo, a região metropolitana onde, de acordo com o ITDP, a cobertura da rede de transporte é ainda menor.

Ele, que também é pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), se prepara para estender a metodologia usada no caso do Rio para avaliar a mobilidade e o acesso a oportunidades em outras capitais com base na renda da população.

A princípio, vai calcular quem mais e quem menos tem acesso a hospitais, escolas e oportunidades de trabalho em até uma hora de ônibus, a pé e de bicicleta em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Goiânia e Fortaleza

Ele espera que essa metodologia ajude os municípios a redefinir rotas e linhas para facilitar o acesso de quem mais precisa do transporte coletivo.

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