'Presenciei quase 500 execuções de presos – e nunca vi uma como a de Christa Pike'

O repórter da Associated Press, Michael Graczyk, está do lado de fora da Unidade de Huntsville antes de testemunhar a execução do assassino confesso Elroy Chester, em Huntsville, Texas. Chester foi condenado pelo assassinato do bombeiro de Port Arthur, Willie Ryman III, morto a tiros em 1988.
    • Author, Sheila Flynn
    • Role, Da BBC News nos EUA
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  • Tempo de leitura: 6 min

O repórter Michael Graczyk acompanhou quase 500 execuções de presos realizadas no estado americano do Texas e não parou nem depois de se aposentar da agência Associated Press (AP), em 2018.

Ele se lembra de dois casos em que as agulhas saíram e precisaram ser reinseridas para que a execução fosse concluída, mas nunca de um caso em que o preso sobreviveu.

Foi o que aconteceu nesta semana no Tennessee, quando Christa Pike, de 50 anos, continuou respirando e roncando alto depois de duas doses de pentobarbital, o barbitúrico usado no protocolo de injeção letal do estado.

Graczyk, de 76 anos, diz que não ficou totalmente surpreso ao saber do caso e que, na verdade, já havia pensado nessa possibilidade ao longo de décadas de carreira como jornalista no Texas.

"Para mim, era só uma questão de tempo", disse à BBC News.

Christa Pike aparece na imagem com expressão sombria, vestindo o uniforme prisional vermelho sobre uma camiseta branca. Seus longos cabelos ruivos estão parcialmente presos, enquanto agentes penitenciários uniformizados aparecem ao fundo.
Legenda da foto, O Tennessee administrou duas doses letais para executar Christa Pike, mas ela sobreviveu.

Segundo a Associated Press, o protocolo de execução do Tennessee prevê um segundo conjunto de seringas com pentobarbital, caso a pessoa não morra com o primeiro. Mas o protocolo não diz o que fazer se o preso continuar vivo depois disso.

O governador Bill Lee suspendeu as execuções no estado após a falha na noite de quarta-feira (30/9) e determinou uma revisão independente dos procedimentos.

Neste sábado (3/10), o chefe do sistema prisional do Tennessee foi retirado do cargo após a fracassada execução.

As execuções malsucedidas passaram a ser alvo de mais atenção na última década, desde que a escassez dos medicamentos usados levou alguns estados a mudar a fórmula ou a obter as substâncias de fontes mais duvidosas. Alguns chegaram a retomar a execução por fuzilamento como alternativa.

Pike está agora em um hospital, onde recebe "cuidados para salvar sua vida", segundo seu advogado.

Uma maca equipada com lençóis, travesseiro e correias de contenção na câmara de execução, com porta e paredes verdes, pode ser vista através das grades de aço da área destinada aos observadores na penitenciária estadual do Texas, em Huntsville.
Legenda da foto, A câmara de execução é vista a partir da área destinada aos observadores na penitenciária estadual do Texas, em Huntsville, onde o repórter Michael Graczyk cobriu centenas de execuções.

Não é raro que uma execução por injeção letal dê errado. Esse é o método mais usado de pena capital nos 27 estados americanos onde ela é legal.

O Death Penalty Information Center, um centro de estudos que não se posiciona nem contra nem a favor da pena de morte, descreve uma execução malsucedida como aquela com "problemas ou atrasos inesperados que causaram, ao menos possivelmente, sofrimento desnecessário ao preso, ou que refletem grave incompetência do executor".

A organização reuniu uma lista de 64 execuções malsucedidas desde 1982, das quais 51 foram por injeção letal. Em pelo menos sete desses casos, as execuções foram interrompidas porque não foi possível inserir a via intravenosa.

Mas Graczyk nunca viu uma execução falhar depois de a injeção ser aplicada.

"Isso nunca aconteceu aqui", disse Graczyk, referindo-se ao Texas.

Graczyk, que cobriu uma ampla gama de assuntos para a AP durante seus 46 anos na agência, considera sua presença frequente em execuções uma parte importante do trabalho.

"De todos os poderes que o governo estadual ou federal tem sobre nós, nenhum é maior do que o de tirar a nossa vida", afirmou.

Segundo o Death Penalty Information Center, houve 1.683 execuções nos Estados Unidos desde 1976, ano em que a Suprema Corte dos EUA restabeleceu a pena de morte.

O Texas realizou, de longe, o maior número entre todos os estados: 602 execuções. Em 1982, tornou-se o primeiro estado a usar a injeção letal para executar pessoas.

"Sempre achei importante que alguém que não tem interesse no desfecho de um caso esteja presente, veja a lei sendo cumprida e se certifique de que é feito da maneira correta", disse Graczyk.

"Que alguém esteja ali para ver e contar aos outros: foi isto que eu vi, foi isto que aconteceu."

Embora esteja aposentado, ele ainda trabalha como freelancer para a AP, cobrindo execuções em seu estado natal.

Ele sente uma responsabilidade especial de não deixar as vítimas dos presos serem esquecidas em sua cobertura e fica particularmente desanimado quando escreve uma reportagem sobre uma execução que não vira grande notícia.

"Sinto pena das vítimas do caso", disse. "São as pessoas esquecidas. Sempre foram."

"Hoje, toda a atenção está voltada para a presa no Tennessee", afirmou. "Ninguém derrama lágrimas pela vítima, a não ser a família mais próxima dela... E eu entendo que é esse o ramo em que trabalhamos, mas isso não quer dizer que esteja certo."

A vítima de Pike foi Colleen Slemmer, uma jovem de 19 anos, natural da Flórida, que adorava andar de patins, sorrir e ajudar os outros, segundo descrições dadas por amigos e familiares.

Slemmer foi torturada e morta por Pike, então com 18 anos, e pelo namorado dela à época, Tadaryl Shipp, depois que os três se conheceram em um campo de capacitação profissional.

A mãe de Slemmer, May Martinez, estava no Tennessee na quarta-feira para a tentativa de execução. Ela disse depois à NBC News que "foi uma bagunça".

O Texas, onde Graczyk mora e trabalha, não permite observadores na câmara de execução enquanto a via intravenosa é inserida, contou ele.

"Então, quando entramos na câmara, o preso já está conectado."

Em uma execução por injeção letal, a via intravenosa normalmente é inserida na dobra do braço da pessoa, disse Graczyk. Mas, se isso não funciona, às vezes a agulha era inserida no dorso da mão, na perna, no pescoço ou em outros pontos.

Nas execuções bem-sucedidas, segundo Graczyk, os presos ficam "visivelmente inconscientes depois de apenas alguns segundos". Em geral, são declarados mortos de 20 a 40 minutos depois da dose fatal, afirmou.

Uma mulher de longos cabelos castanhos, caindo sobre uma blusa bordô, aparece diante de um púlpito equipado com vários microfones. Atrás dela, dois homens de terno estão posicionados ao lado de fotos ampliadas de uma adolescente loira e sorridente, Colleen Slemmer, assassinada aos 19 anos por Christa Pike.
Legenda da foto, Colleen Slemmer, de 19 anos (foto do cartaz), foi assassinada por Pike.

Ele ainda lembra da morte de Jonathan Nobles, executado por injeção letal no Texas em 1998. Nobles havia recebido a sentença após ser condenado pelo assassinato brutal, a facadas, de duas mulheres em Austin, em 1986: Kelley Fraquhar e Mitzi Johnson-Nalley.

As últimas palavras de Nobles foram a canção Silent Night (Noite Feliz).

"Ele chega em 'Round yon virgin', terceiro verso da música em inglês, e para de falar", contou Graczyk à BBC News. "Foi o tempo que o medicamento levou para fazer efeito, até ele não estar mais consciente."

Essa cena acompanha Graczyk há quase 30 anos.

"Até hoje, quando estou na igreja no Natal, e o coral está cantando Noite Feliz, e toda a congregação se junta no canto, e todos estão, sabe, no espírito e na alegria da época, e eu penso nessa execução... Tenho certeza de que sou o único na congregação tendo esse tipo de lembrança."

Quando as pessoas ficam sabendo de sua carreira cobrindo execuções, diz ele, costumam ficar curiosas.

"A maioria das pessoas não tem a chance de ver alguém morrer", afirmou.

Mas, quando lhe perguntam sobre o que testemunhou, ele responde que isso está longe de ser tudo o que fez na vida.