De 1,3 milhão a 5 mil votos: como cearenses derrubaram Tiririca após 14 anos eleito por SP

O político e humorista Francisco Everardo Oliveira Silva usando camisa vinho, jaqueta escura  e uma gravata. Ele tem um microfone perto de seu rosto
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Conhecido pelo bordão "Pior que tá, não fica", o humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca (PSD), não conseguiu se reeleger deputado federal nas eleições deste domingo (4/10).

Depois de ser o deputado mais votado de 2010, com mais de 1,3 milhão de votos em São Paulo em 2010, e se reeleger mais três vezes pelo Estado, Tiririca decidiu mudar de partido e transferir sua candidatura para sua terra natal, o Ceará.

Não deu certo: ele obteve 5.536 votos em sua primeira disputa no Estado nordestino, bem longe do necessário para ocupar uma das 22 cadeiras do Estado na Câmara dos Deputados.

É a primeira derrota de Tiririca nas urnas, que deixará o cargo ao fim da atual legislatura, em 31 de janeiro de 2027.

Natural de Itapipoca, no interior cearense, Tiririca começou a carreira no circo ainda criança e ficou famoso nos anos 1990 com a música 'Florentina' e com programas de humor na TV.

Legado político

Tiririca chegou à política em 2010 com uma campanha que ironizava os próprios políticos. Antes de tomar posse, teve de provar à Justiça Eleitoral que sabia ler e escrever.

O Ministério Público Eleitoral o acusou de apresentar uma declaração falsa de alfabetização, e ele passou por um teste de leitura e ditado no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Acabou absolvido.

Na Câmara, ficou conhecido pela assiduidade e pela atuação discreta. Não faltou a nenhuma sessão de votação no primeiro mandato, mas fez apenas seis discursos em plenário desde 2011.

A maior parte de seus projetos trata do circo. O de maior destaque foi o projeto que alterava a Lei Rouanet de incentivo à cultura para reconhecer a atividade circense como manifestação cultural nacional. Foi aprovado pelas comissões da Câmara em 2017, mas acabou arquivado pelo Senado em 2024.

O discurso mais lembrado foi em 2017, quando disse estar decepcionado com a política e anunciou que não disputaria outra eleição. Voltou atrás no ano seguinte.

Em novembro de 2025, Tiririca anunciou sua mudança do PL para o PSD.

Fora do plenário, ganhou outra vitrine. Segundo um levantamento da Nexus divulgado pelo site PlatôBR em julho, Tiririca tem cerca de 7 milhões de seguidores no TikTok, onde publica vídeos de humor sem conteúdo político. É o quarto parlamentar com mais engajamento na plataforma.

Votos em declínio

Em 2010, Tiririca surpreendeu todo o país ao receber 1.353.820 votos.

Foi o deputado federal mais votado do Brasil e teve a segunda maior votação da história para o cargo, atrás apenas de Enéas Carneiro, em 2002.

O excesso de votos ajudou a eleger outros candidatos da coligação, que individualmente tiveram votações pequenas, o chamado efeito puxador.

Depois disso, a votação caiu a cada eleição: 1.016.796 votos em 2014, 453.855 em 2018 e 71.754 em 2022.

Na última disputa por São Paulo, foi o último colocado entre os eleitos. Conquistou a vaga nas sobras, graças ao desempenho do partido.

Tiririca caracterizado

Tiririca atribuiu parte da queda de 2022 a uma disputa no PL. Naquele ano, o partido passou para o deputado Eduardo Bolsonaro o número de urna 2222, que o humorista usava desde 2010.

"Isso é como transferir boa parte dos meus votos para Eduardo Bolsonaro", afirmou na época, em entrevista ao UOL.

Em novembro de 2025, ele deixou o PL, se filiou ao PSD e transferiu o domicílio eleitoral para o Ceará.

"É uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará e, se Deus quiser, vamos fazer um mandato sensacional agora com o apoio do PSD", declarou, em nota divulgada pelo partido.

Reação nas redes

Nas redes sociais, a derrota virou motivo de comentário entre usuários que se identificavam como cearenses, e boa parte das mensagens tinha tom de orgulho regional.

"Aqui no Ceará tiririca não ganha", escreveu um usuário do X.

"Tiririca pensa que se cria aqui no Ceará", publicou outra.

Alguns associaram o resultado ao comportamento do eleitor local.

"Tiririca veio se candidatar no Ceará, acho que ele não sabe que aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto", afirmou um deles.

Tiririca não foi o único

Tiririca não foi o único nome conhecido a buscar votos longe da base eleitoral de origem nesta eleição, e os resultados variaram.

O ex-deputado Jean Wyllys (PT), que teve três mandatos pelo Rio de Janeiro quando era filiado ao PSOL, disputou uma vaga na Câmara por São Paulo e recebeu 18.073 votos, insuficientes para se eleger.

Já Carlos Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e vereador do Rio de Janeiro por sete mandatos, transferiu o domicílio eleitoral para Santa Catarina e foi eleito senador, com cerca de 25% dos votos.

Diferentemente da disputa para a Câmara, a eleição para o Senado é majoritária: ficam com as vagas os candidatos mais votados, sem a distribuição de cadeiras pelos votos dos partidos.

Outras celebridades também ficaram sem mandato. Em São Paulo, não se elegeram deputados federais a apresentadora Silvia Abravanel e a jornalista Rachel Sheherazade, ambas do PSD, que tiveram cerca de 22 mil votos cada uma.

Também ficaram de fora o apresentador José Luiz Datena (PSB), o cantor Netinho de Paula (MDB), o funkeiro MC Gui (PSD) e Manoel Gomes, o Caneta Azul.